Luta contra a dor e a incerteza

Vizinhos do Batalha dos Guararapes aguardam inseguros desfecho de viaduto na janela de casa

iG Minas Gerais | Joana Suarez |

Cristilene (mulher de Charlys) está em tratamento e ainda não voltou a trabalhar
JOAO GODINHO / O TEMPO
Cristilene (mulher de Charlys) está em tratamento e ainda não voltou a trabalhar

O aniversário de 6 anos de Ana Clara foi ontem, mas a festinha com o tema da boneca Monster High, que estava sendo planejada há mais de um mês, ocorreu sem a mãe dela, Hanna Cristina dos Santos, 25, motorista do micro-ônibus que foi atingido pelo viaduto. A menina ainda não consegue falar nada sobre o acidente, já que também estava no coletivo. Ela anda esquecida das coisas, mas guarda as roupas da mãe dizendo que serão suas quando crescer. A pequena Ana Clara é talvez a maior vítima do erro que fez a estrutura destruir vários sonhos, mas muitas famílias estão enfrentando a “Batalha dos Guararapes” (nome do elevado) há mais de um ano, desde quando começou a construção do viaduto, e o último mês foi o pior deles.

Há uma semana, pelo menos 20 famílias que moram nos prédios mais próximos ao elevado saíram de suas casas por recomendação da prefeitura e foram levadas para um hotel no bairro São Cristóvão, na região Noroeste da capital, a cerca de 10 km do local do acidente. Algumas delas chamam a situação de “abrigo de luxo”, com direito a todas as refeições, lavanderia, segurança 24 horas nos prédios “abandonados” e uma van para o transporte. Tudo pago pela construtora Cowan. Mas eles preferiam desfrutar do conforto de um lar seguro. “Ninguém diz ao certo o que vai acontecer, quanto tempo vamos ficar fora, não há um laudo assinado sobre os riscos”, destacou a presidente da associação dos moradores da avenida Pedro I, Ana Cristina Drumond.

A técnica de enfermagem Ana Paula Ferreira, 42, foi para o hotel com a filha de 20 anos por não aguentar mais a agonia de sentir a cama, os copos, tudo tremer em casa diariamente por causa da obra do viaduto. Ela acredita que estar em um hotel não é pior do que o que eles estavam vivendo nos prédios. Paula foi uma das primeiras a tentar socorrer Hanna Cristina no dia da tragédia. “Vi aquela motorista morrer. Eu precisava relaxar, parecia uma louca naquele apartamento. No hotel, consigo dormir sem medo de um viaduto cair no quarto da minha filha, que está bem do lado. Só quero ver aquele viaduto no chão e ter minha vida de volta”, desabafou.

Entre os que decidiram permanecer nos imóveis está a aposentada Marilda Siqueira Madeira, 61, que não saiu de casa porque não poderia levar a sua gata. Alguns animais ficaram sozinhos no apartamento. “Se esse viaduto tivesse que cair, já tinha caído. Ele já está todo escorado. Mas é claro que tenho medo. No último mês, a vida da gente virou de cabeça pra baixo”, contou Marilda.

Como a prefeitura informou que vai aguardar o laudo da polícia para decidir sobre a demolição do viaduto, os moradores devem ficar, no mínimo, mais 30 dias sem destino. Alguns que tinham ido para o hotel já decidiram voltar para casa. Os demais aguardam a emissão de um laudo que garanta a segurança deles.

Frases

“Se a recuperação do viaduto demorar muito tempo, vamos ter realmente que implodi-lo.”

Marcio Lacerda - Prefeito

“É possível recuperar e investigar com detalhes, mas devem ser avaliados os transtornos para os moradores que já saíram de suas casas.” Clemenceau Saliba Jr. - Perito do Ibape-MG

“Minha filha de 5 anos está achando lindo ficar no hotel, mas não é minha casa. Venho todos os dias trazê-la na escola e ver meu apartamento. Não aguentamos mais essa incerteza.” Anita Zambrano - moradora do bloco 8 do Edifício Antares

Consequências

Convívio. Com a mudança, os vizinhos passaram a se conhecer melhor e conviver mais no hotel.

Desvalorização. Quando a reportagem esteve nos prédios na última semana, um corretor avaliava um apartamento. O proprietário falou que queria vender a qualquer custo. Moradores disseram que teve gente que já vendeu o imóvel avaliado em R$ 200 mil por R$ 70 mil.

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