O branco que ganha

iG Minas Gerais |

Uma parcela assombrosamente enorme do eleitorado se pronuncia a favor de anular o voto ou deixá-lo em branco na cédula eletrônica, mesmo dando-se ao trabalho de atender a obrigatoriedade de se apresentar para votar.   O fenômeno espanta, ultrapassa qualquer outro momento da história do país. Não se trata apenas de indecisão, de indiferença. Retrata a vontade, neste momento, de reprovar as opções disponíveis. Isso fere diretamente a “classe política”, macula o princípio de democracia que deveria garantir ampla possibilidade de escolha. Nem um lado quanto menos outros se mostram merecedores do esforço de digitar apenas dois números na urna daqui a 60 dias. A somatória de brancos e nulos ultrapassa a preferência da primeira colocada, Dilma Rousseff, e, mesmo somando-se os votos do segundo colocado, o “não voto” continua majoritário nas preferências da população. Quer dizer que a maioria preferiria que o cargo não fosse preenchido por ela nem por outro. Ainda estaria faltando o candidato que se aproxima de suas aspirações. Pesa evidentemente nessa circunstância a desaprovação da atual presidente, exatamente agora, depois de três anos e sete meses nos quais poderia ter se preparado para chegar a este momento com as credenciais para uma reeleição fácil. As contas públicas esgarçadas, a indústria em frangalhos, as exportações minguando, a sombra da recessão e do desemprego colaboram para a má vontade de manter o voto a favor de Dilma e do PT. O refluxo atinge os candidatos ao governo do PT em todo o Brasil, e são poucos os Estados nos quais o PT tem possibilidades reais de ganhar. Em Minas, até então a mais provável vitória do PT registra, segundo o Ibope, a perda de um terço dos eleitores, cerca de 13 pontos nos últimos 30 dias. Por sua vez, Pimenta avançou apenas 3 pontos, dentro da margem de erro. Quer dizer que a migração se deu essencialmente para os brancos e nulos. Não votar é a forma desesperançada de protestar, pois, se não houver uma opção “ideal” ou empolgante, o “menos pior”, pela lógica, deveria merecer o esforço de digitar dois números na urna eletrônica O que está certo agora é que o eleitor que desaprova o governo Dilma não pretende votar nela, mas também não encontra razões para migrar para o lado oposto. Daí se desencadeou um apelo dos candidatos contra o “não voto”. Até o momento parece essa a proposta de maior conteúdo que deu para se ver num cenário desesperançado. Claro que, no deserto de propostas dos candidatos, o voto branco mostra como a forma de governar e de fazer oposição, nos últimos anos, decepciona o eleitor.

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