Filósofo do cinema de cordel

“Se fosse escritor, ia imitar Graciliano Ramos. Se fosse poeta, imitaria Manuel Bandeira e Murilo Mendes”

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

“A vida é um grande aborto, as escolhas que você faz. É escolher ir por um caminho e não pelo outro”
Mario Miranda Filho
“A vida é um grande aborto, as escolhas que você faz. É escolher ir por um caminho e não pelo outro”

Afastado das telas desde 2009, Lírio Ferreira apresentou no 6º Paulínia Film Festival seu novo longa, “Sangue Azul”, sobre uma trupe de circo que chega a Fernando de Noronha. Na entrevista abaixo, ele fala sobre filmar no paraíso, seu pavor de mergulho e a sexualidade vulcânica da produção, que venceu os prêmios de melhor figurino e fotografia em Paulínia.

“Sangue Azul” é a história de um cara voltando para sua terra natal, no Nordeste, após encontrar uma fuga por meio da arte e do espetáculo. Esse é um projeto mais pessoal para você do que os anteriores?

Toda obra sua – por mais que se fuja, tente enganar e dizer que não é – tem uma coisa autobiográfica. Mas se você pegar ao pé da letra, nunca morei numa ilha, aparentemente vulcânica, no meio do oceano. Só que existem elementos: esse retorno constante do pernambucano, que viaja muito. Sou um rapaz de Recife e tem essa coisa de ter um porto lá. O eterno retorno, a volta do filho pródigo é algo que já tem no “Árido Movie” e, de certa maneira, no “Baile Perfumado” também. Quando o Benjamin abandona o litoral e vai para o sertão, acho que ele está buscando algo dele ali. O “Sangue Azul” nasceu de uma ideia básica: uma ilha dentro de uma ilha. Uma ilha que não se move, segundo o personagem do Ruy Guerra, e uma ilha que se move, que é o circo – e expandiu para as relações dos personagens. 

O protagonista do Daniel de Oliveira, em certo momento, chora uma vida que não foi. Para você, essa escolha entre vida e arte é inevitável?

A vida da gente é feita de abortos. Os babacas, os cafonas e os imbecis têm um problema com essa expressão. Mas, na vida, tudo se resume a isso: um grande aborto, as escolhas que você faz. Vivo fazendo abortos. É você escolher ir por um caminho e não pelo outro. Decidir viajar por uma estrada asfaltada ou mais acidentada. E o personagem do Zola é isso. Só que a escolha mais forte da vida dele não foi ele quem fez, foi a mãe.

Visitar Fernando de Noronha já não é uma coisa muito fácil. Me fale dos desafios de filmar lá.

Para os parâmetros de se filmar no meio do caminho entre o Brasil e a África, no meio de uma ilha vulcânica, o filme é até barato. Tem filme que você faz na sua vizinhança, em São Paulo ou Recife, que é mais caro. A produção fez milagre porque tudo numa ilha distante é muito mais caro e complicado. Mas, para mim, cinema, se não tiver sonho e loucura, não vale a pena fazer. E a gente foi super bem recebido pelo pessoal da ilha. Fomos lá três vezes antes. Imagino que nunca um circo tenha ido para Noronha. Imagina um circo, mais o circo do cinema?

E como foi a filmagem subaquática na cena do mergulho?

Mergulhar foi um pavor. Para fazer a cena, a equipe toda teve que fazer o curso e, para mim, foi quase um filme de terror : “caramba, como é que eu vou passar por aqueles peixes?”. Fizemos uns cinco ou seis mergulhos. Tinha mais cenas, inclusive, mas virou tudo uma grande sequência. Era o estar, não em um ambiente hostil , mas onde o som se propaga de uma forma completamente diferente. Então, havia a questão de se comunicar. E outra da refração da luz. Mas, a partir do momento em que você mergulha, é uma transição tão maravilhosa, profunda mesmo, que você fica lá embaixo imaginando, “nossa, lá em cima está acontecendo uma porrada de coisas, os israelenses estão bombardeando a Faixa de Gaza, mas aqui dentro está uma paz tão grande”. E aí passam um cardume de mariquitas e um tubarão do seu lado nem olhando na sua cara. E é lindo. É uma paz interior. É muito difícil atingir isso. Só com o cinema mesmo.

“Sangue Azul” é um filme de corpos em ebulição, prestes a explodir em sexualidade e violência. Como foi trabalhar isso com os atores?

Fernando de Noronha é uma ilha vulcânica, né? O segredo é encontrar as pessoas certas e colocá-las nesse ambiente inóspito. É uma coisa que eu gosto de fazer. Nos meus filmes anteriores, tem sempre essa presença da natureza. No “Baile Perfumado”, a natureza influencia muito Lampião. No “Árido Movie”, a aridez e a secura do filme influenciam muito o Jonas. E em “Sangue Azul”, a natureza vulcânica do filme passa para todos os atores. O bacana de se filmar em locação e de tentar fazer um discurso numa certa geografia é isso. O grande tubo de ensaio é colocar as pessoas nesse ambiente aparentemente calmo, mas profundamente selvagem.

Você identifica influências que marcaram a realização do filme, cinematográficas ou não?

Sou muito do meu tempo, apesar de gostar muito do passado e tentar ir para o futuro. A vida, para mim, é uma escadazinha que eu tenho que andar para a frente, sem nunca esquecer de dar dois passinhos para trás e pensar no próximo. Quando volto para trás, tem uma porrada de influências que já citei em um monte de coisas. Mas uma literária que sempre me marcou é Graciliano Ramos, um cara com um poder de síntese muito grande. Se fosse escritor, imitaria Graciliano Ramos. Se fosse poeta, imitaria Manuel Bandeira e Murilo Mendes.

Nesses cinco anos em que você realizou “Sangue Azul”, Pernambuco se tornou o principal polo criativo do cinema brasileiro. Como é isso para você, que começou ali quase 20 anos atrás com “Baile Perfumado”?

É uma profunda convivência dos desiguais, da diferença, o que é bacana. O Hilton Lacerda, por exemplo, é um cara que trabalha comigo há um bocado de tempo. E se a gente senta para conversar, provavelmente, temos um monte de discordâncias. Pernambuco são dez letras que não se repetem, né? Lenine falava isso. Hilton fez um filme lindo, “Tatuagem”, que talvez não converse em nada com “Sangue Azul”. Mas, se você perceber, tem três vírgulas, dois travessões e uma aspa que remete um a outro, como a Marcelo Gomes, Cláudio Assis, Kléber Mendonça. Pernambucano é um povo meio bravo, mas tem esse espelho e, quanto mais você renega, tenta quebrar, mais se vê.

E qual a principal diferença entre o cinema brasileiro hoje e quando você começou?

A distância de Recife para São Paulo é a mesminha de quando comecei em 1985. Mas hoje é mais perto. O processo da cultura brasileira é essa migração, a troca de ideias. Não exijo, como nunca exigi em nenhum dos meus filmes apesar de eles terem uma prosódia muito específica, um sotaque dos atores paulistanos, gaúchos e mineiros que estão no “Sangue Azul” porque cinema, para mim, é uma distribuição de personalidades, independente de onde vem, para onde vai. Quando impõe uma barreira, você engessa de certa maneira. “Vamos para uma ilha transformar você em um ilhéu de uma hora para outra, rapte-me camaleoa”. Não pode ser desse jeito, né? Envolve uma delicadeza e, quando você menos percebe, está dentro daquele ambiente de uma maneira natural. Uma mistura de Eduardo Coutinho com Rogério Sganzerla e Júlio Bressane. Uma coisa doida: quando a gente menos vê, está bebendo na fonte dos deuses.

Você acha que existe uma divisão hoje no Brasil entre o cinema popular, a comédia e os filmes de festival?

Vou dar um exemplo para explicar isso. A Copa do Mundo no Brasil, que acabou agora, tinha um tema que dizia que somos todos um. Unir todo mundo num padrão. Uma maneira de homogeneização quando, na verdade, o grande barato numa Copa do Mundo de futebol é celebrar a diferença. Um time do sul da África jogando com o time do Caribe e misturando as diferenças para criar uma coisa nova. Mas aí você padroniza tudo no evento, como se tudo fosse a mesma coisa, como se não existisse tapioca em Pernambuco, acarajé na Bahia e o sanduíche do McDonald’s fosse o mesmo em todo lugar. E o bacana, quando você tem alteridade, é descobrir a diferença. É complicado. O espelho foi feito para ser quebrado.

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