A tipografia de Gutenberg e o livro do futuro

iG Minas Gerais |

Intervenção sobre o manuscrito iluminado “Catholicon”, de John Balbi, concluído em 1286
undefined
Comecei minha vida profissional como arte-finalista, fotógrafo e tipógrafo numa agência de propaganda. Toda quinta-feira, numa pequena tipografia instalada no porão, montava os títulos dos anúncios dominicais com tipos de madeira. Às vezes, se o texto era curto, também os compunha, com tipos grandes de metal. Em pleno século XX, eu trabalhava com o mesmo material (mutatis mutandis) com que Gutenberg, em 1450, começou a imprimir sua famosa Bíblia, tarefa que lhe custou cinco anos. Desde então, conheci todas as transformações da indústria gráfica, quase sempre com a mão na massa, principalmente na produção de livros como diagramador.</CW><CW0> Em 2014, comecei a trabalhar a sério com livros digitais, depois de cinco anos de pesquisas. Dessa forma, no curto espaço de uma vida de trabalho, atravessei literalmente 564 anos de história. BICHOS DE SETE CABEÇAS   Grandes empresas multinacionais costumam acelerar processos e botar o carro adiante dos bois. Como sua meta é o máximo de vendas e de lucro, atropelam-se umas às outras e, com frequência, atropelam os próprios produtos, lançando novos modelos antes que os anteriores tenham caído do galho. É a obsolescência planejada. Na guerra de foice virtual dos e-books, meia dúzia das graúdas tenta definir o padrão que ditará o modo de leitura daqui (?) em diante. E que trará, como recompensa, bilhões ou trilhões de dólares para reforçar o caixa. A briga é de gigantes. No início, até pensei em estudar HTML e CSS, linguagens de programação e formatação, responsáveis por tudo o que circula na internet, de jornais a livros, sites e blogs. Acabei desistindo. Tem muito garoto de 12, 15 e 18 anos metidos nisso e não seria eu, com 75 feitos, a competir com eles. Mas poderia ao menos, pensei, contratar a produção de e-books dentro de meu, digamos, padrão. CURIOSIDADE NÃO MATA Há dois anos comprei o primeiro dispositivo de leitura: um iPad 2, da Apple, dos mais sofisticados. Claro que o bicho faz quase tudo, além de ter excelente resolução de imagem colorida e dezenas de recursos. Os entendidos me desiludiram: o leitor comum, quando é realmente leitor de e-book, compra coisa mais simples e barata. Se é para ler, para que complicar? Assim comprei um Kobo, pela Livraria Cultura, e quase caí em depressão. É um bichinho feioso, pequeno, para leitura de livros em preto e branco. Só isso? Era pouco. Então parti para o Kindle, da Amazon, com tela também em preto e branco, mas com melhor resolução e, para quem lê muito, mais confortável. Mesmo assim, a distância para o iPad continuava sendo enorme. O BARATO SAI CARO   Quando testei pela primeira vez meu iPad, avançado e sofisticadíssimo e-reader, fiquei fascinado com o livro produzido pela Editora Globo, “A Menina do Narizinho Arrebitado”, de Monteiro Lobato, ilustrado por Rogério Coelho. Cores, movimento, sons – tudo isso provocado a cada toque meu. Caraca! Que coisa doida! Meu queixo caiu. Arregalei os olhos. Decretei o fim do livro impresso e a falência próxima das editoras dos superados livros impressos. Imaginei estoques enormes vendidos como papel velho, tudo picadinho e ensacado. Finalmente, o futuro estava diante de mim, escancarado! Mas... RIRAM NA MINHA CARA A grande vantagem de ser curioso é a inexistência de limites. O grande problema é cair do cavalo com frequência. Mais uma vez eu caí. A produção de um livro daqueles custa uma fortuna de pobre. E é até um livro pequeno, com ótimos, mas poucos recursos. Claro que tem seu charme, só que não é para o meu bico. Fiquei sabendo também que é do tipo “leiaute fixo”, que você não pode modificar na leitura. E isto. E aquilo. E mais isto e mais aquilo. Etc. De volta à Terra, dois anos depois resolvi encarar a fria realidade do que temos e podemos contra o que sonhamos. Pelo menos do que podemos agora, porque o futuro continua me piscando o olho. Tchau, sonho! Mas será que é tchau mesmo? ENTÃO ESTAMOS ASSIM Velho quando não é caduco está pensando besteira. Não desisti do “livro dos meus sonhos”, mas por enquanto tenho de reduzir meus sonhos ao que podemos fazer. E o que podemos fazer é simples feijão com arroz. O e-book atual está mais para livro de bolso do que para edição caprichada e charmosa.  Chato, não é? Levamos séculos para obter livros bonitos, sofisticados, cheios de gravuras, cores, vinhetas, texturas, pop-ups... Gastamos uma eternidade para diversificar tipos, corpos, rotações, compressões, justificações, kerning... E vem a dona Apple, a madame Adobe e o senhor Kindle dizer que não, em e-book não pode. Pode é o feijão com arroz. Pode livro de bolso, com uma ilustraçãozinha aqui, outra ali, e olhe lá. Não me venha com invenções disparatadas, dizem eles. GUTENBERG E SEBASTUNES O tipógrafo alemão era careca e barbudo. Sebastunes também. O alemão era teimoso que nem burro quando empaca. Sebastunes também. O alemão gastou a vida inteira para produzir tipos móveis que valessem a pena. Sebastunes gastou a vida inteira produzindo livros que fossem gostosos de ver e ler. Gutenberg foi um idiota, Sebastunes também. No fundo, no fundo, esse negócio de inventar sem lucrar é coisa de doido. Mania de gente besta. Dar nó em pingo d’água não leva ninguém a parte alguma. Só ao hospício. Mas eu não desisto. Um dia ainda faço um e-book danado de bonito!

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave