Divórcio no cérebro

iG Minas Gerais |

Entre mitos, mistérios e surpresas, o cérebro guarda segredos e apresenta revelações que deixam qualquer um de queixo caído. Computador biológico inigualável, tem como função básica a busca incessante de, modificando funções físicas, gerando a consciência e criando um plano psíquico, nos adaptar ao mundo que nos cerca.  Para funcionar, o cérebro gera atividade elétrica (daí o eletroencefalograma), simultaneamente em que faz trocas químicas dos neurotransmissores, permitindo, assim, que células neuronais altamente especializadas, dependendo das áreas cerebrais em que se localizam, façam complexas equações matemáticas, escrevam um poema, controlem movimentos delicados em um balé, criem máquinas e eletrônicos fantásticos, ou matem um semelhante, agridam, delirem e tenham, alucinações ao usar drogas pesadas, ou mesmo virem um bobo alegre como retardado psicomotor quando se abusa da bebida alcoólica. O cérebro é escravo da mente e patrão do corpo, e se relaciona com a energia psíquica ao pensar, sentir e agir, e, da mesma maneira, tira o sono, faz o peito apertar de angústia, os olhos lacrimejarem pela emoção. Descompensa, quando preocupações irreais assaltam a mente. Sofrimentos antecipatórios erradamente ativam o estresse, e pensamentos disparados roubam nosso prazer e alegria em viver. E desconta no corpo, ao disparar o coração, apertar o peito, dar falta de ar, tonteira, dores no corpo, tentando, com isso, com essa linguagem corporal, dizer: “Chega de tanto pensar negatividades e pessimismo, relaxa, desapega, entrega para Deus!” Evolutivamente, podemos dizer que o cérebro se desenvolve de baixo para cima. Quanto mais inferior, mais reptiliano e instintivo ele é. Guarda características comportamentais como agressividade, defesa de território, necessidade de seguir liderança. Depois, na parte média, vem a região chamada “hipotálamo”, onde está a sede do estresse e das emoções, no chamado “cérebro mamífero”, em que a amamentação criou sentimentos, afetos, nos dando características para defender a cria, ter noção de família, bando, socializar e ter prazer com o sexo, por exemplo. E finalmente, a última camada evolutiva, o telhado do cérebro, a parte mais cinzenta, evoluída, chamada “córtex cerebral”, dá origem a parte mais humana, que permitiu dominarmos a fala, a lógica e o raciocínio, e estabelecer regras de convívio social, religioso e familiar.  De todos os órgãos, o cérebro é o único que continua a mudar, crescer, evoluir, dia após dia, ano após ano, geração pós geração. Ou não! Pois, muitas vezes, grandes e evoluídas civilizações (grega, romana, egípcia), ao atingirem ápices, sofreram grande decadência, e por longo tempo (vide a “idade das trevas”). Grandes saltos e grandes quedas deslumbram e assustam a evolução da humanidade. Por tudo isso, atenção para o momento atual. Enquanto a lógica e a ciência nos geram robótica, viciantes e escravizantes eletrônicos, com suas telas sedutoras, a nanotecnologia cria máquinas minúsculas e poderosas, nunca o afeto foi tão troglodita, e regredimos tanto nas relações afetivas interpessoais, no convívio com a família e no aspecto conjugal, familiar. Assaltos, guerra urbana, guerras entre nações, intolerância religiosa, briga de classes, de torcida, mata-se por nada, agride-se por motivos torpes e banais.  Há um divórcio litigante entre uma parte do cérebro (o córtex), que nos levou quase a uma realidade de ficção, em um mundo virtual, rápido, ilusório, que nos oferta o mundo na palma da mão, a capacidade de ser visto e conhecido planetariamente em um toque de teclado, e em contraponto, outra parte do cérebro (o hipotálamo), em o estresse e emoções, gerando medo, ciúmes doentios, ódios estranhos, tristezas e angústias imobilizantes, busca artificial do prazer e relaxamento, via bebidas e drogas diversas, e cada vez mais demenciadoras, como o crack e metanfetaminas.  Sim, meus amigos, estamos no limbo, no limiar de uma guerra tribal, da luta entre o “homo sapiens” e o “homo digitalis”, como descreveu um articulista. O conflito entre o real e virtual, os favoráveis e os contrários, os radicais da esquerda, de centro e de direita, os intolerantes e os tolerantes, os passivos e os hiperativos. Tudo extremado e inflexível. Vaidades, selfies, egocentrismo, indiferenças. Um belo e inacabado cenário, ruínas de um tempo louco e sem nexo, como num divórcio litigante: muitas versões, pouca verdade!

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