A era do telefone

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Já foi bem mais difícil. Quando um dos dois estava a milhas e milhas distante, só mesmo as cartas. Elas demoravam dias para chegar ao destinatário. Foi ali que o Rei Roberto resolveu dar um basta na situação: “Cartas já não adiantam mais, quero ouvir a sua voz, vou telefonar dizendo que eu estou quase morrendo de saudade de você”. Utilizar a invenção de Graham Bell doía no bolso. Tinha gente que esperava o fim da novela das oito para tal finalidade. Eu fui do tempo da linha fixa, do “não sou sócio da Telemig!”, “pendurada de novo nesse telefone, menina?” quando a conta chegava. O tempo do “desliga você”, “não, desliga você”, “aaah, desligamos juntos em 3, 2, 1...”. E quando me lembro disso, vem a cena de “Friends” em que a Rachel, irritada com o tom meloso do Ross com a Julie do outro lado da linha, faz uma intervenção nada sutil.  A invenção do celular foi uma eternidade para mim. Porque não bastou criarem um telefone que só eu atenderia, sem o risco da irmã mais nova gritar “é seu namoradinho” quando atendia primeiro (e normalmente, do outro lado da linha, havia um dito cujo bem indeciso). Era preciso ter grana para adquirir aquele tijolinho. Os modelos avançaram, por outro lado, numa velocidade incrível, assim como as suas funcionalidades. O simples telefonema se desdobrou em todos os tipos de mensagem, e ainda é possível rastrear o seu amor por meio de um aplicativo. Ficou tão fácil que perdeu a graça.  Eu troco uma infinidade de mensagens de textos diariamente com o meu amor. Não é incomum ficar na dúvida se foi Whats App ou SMS. Mas ando pensando em radicalizar: passar numa papelaria qualquer dia desses para comprar material e escrever uma carta para ele. Na caixa do correio, onde só existem contas e folhetos de entrega de pizza, estaria o envelope escrito à mão, como todo o conteúdo naquela letrinha quase infantil e redondinha. Rechearia de afeto e, especialmente, jogaria fora todas as abreviações, como “vc”, “abs” e “bjs”, desses tempos frenéticos de textos instantâneos. Será que minha ansiedade aguenta?   Ludmila Azevedo é jornalista, pós-graduada em cinema e escreve essas e outras crônicas no ludj.blogspot.com.br. 

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