Lamento de uma mãe

iG Minas Gerais |

Nayara pegou o filho nos braços. Estava assustada com a notícia que acabara de ver na TV. Apertou o menino junto ao peito, como se assim pudesse protegê-lo de tamanha crueldade. Ele é o seu maior amor. Ainda tão pequeno, tão indefeso e tão alheio às maldades do mundo em que vai crescer. Durante o dia inteiro a jovem mãe foi assombrada pelos pensamentos. Tentava compreender a loucura que se sobrepôs ao instinto maternal. Buscava compreender o que levou uma mãe a matar o próprio filho. No dia seguinte, leu no jornal mais notícias. Nada descrito sobre o crime em Ibirité era capaz de fazer com que Nayara acalmasse seu coração. Estava estarrecida com a violência, com a frieza da mulher que jogou o filho na parede e depois escondeu o corpo no sofá. Keven só tinha 2 anos. A mesma idade de Luan, o filho de Nayara.  Nayara também regula idade com Marília, a mãe que agora está atrás das grades. Duas jovens, classes sociais parecidas, vidas recheadas de problemas e, ao mesmo tempo, caminhos distintos. Um parente disse que Marília não tinha muito tempo para cuidar de Keven – menino frágil e com diversos problemas de saúde. Nayara tem dias corridos e uma culpa enorme por não poder passar mais horas com o filho.  Ela não planejou ter Luan tão jovem. Mas faltaram ações preventivas. Parou de estudar por causa da gravidez e, depois que teve o filho, começou a trabalhar como doméstica. Demora quase duas horas para chegar à casa da família para quem presta serviço. O pai de Luan nunca assumiu a criança. Sumiu no mundo. Mas Nayara resolveu seguir com a gravidez e foi mãe, de fato, no dia em que pegou o menino nos braços pela primeira vez. Depois de ser tomada por um impulso que só quem já sentiu consegue entender.  Os dois anos que se passaram após o nascimento de Luan não foram fáceis. O garoto precisa ficar na creche, e a doméstica conta com a ajuda de uma tia-avó nos cuidados. Luan é ativo ao extremo, e, por muitas vezes, Nayara chama a atenção, corrige. Em outros momentos, chega a colocar de castigo e até a dar umas palmadas. Só que o amor nunca faltou. Nem mesmo diante do caos.  Nayara não acredita na versão de Marília. Lamenta que ela não tenha socorrido Keven após jogá-lo contra a parede. Ela a abomina pela brutalidade de esconder o corpo do garoto dentro de um sofá. Não vê Marília como insana. Ao contrário, sua análise é de que a mulher é “boa da cabeça”. Mais que isso, maquiavélica o suficiente para planejar o que viria depois, para tentar se resguardar e para inventar o desaparecimento para o marido e para a família. Fria o bastante para dar queixa do falso sumiço à polícia.  Nayara teme pelo mundo violento em que Luan vai crescer. Acha que as pessoas andam um tanto quanto perdidas. E Nayara tem razão. Assim como ela, eu e muitas outras mulheres tememos pelo futuro de nossos pequenos.  Não acredito que existam regras para definir quem deve ou não deve ser mãe. Nenhuma mulher está totalmente preparada para a maternidade. A gente aprende com ela. Todo dia um pouco. Aprendi que ser mãe é bem mais do que conceber. É uma mistura de gestão, entrega, cobrança, cuidados, preocupações que não findam, prazer, exemplo. Acima de tudo, a maternidade está ligada ao amor. E, sinceramente, não acho que quem ame como mãe seja capaz de matar seu maior bem. 

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