O humor como expressão de saúde psíquica e espiritual

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Todos os seres vivos superiores possuem acentuado sentido lúdico, mas o humor é próprio dos seres humanos. O humor nunca foi considerado tema sério pela reflexão teológica, mas na filosofia e na psicanálise teve melhor sorte. Humor não é sinônimo de chiste, pois pode haver chiste sem humor e humor sem chiste. O humor só pode ser entendido a partir da profundidade do ser humano. Sua característica é ser um projeto infinito, portador de inesgotáveis desejos, utopias, sonhos e fantasias. Tal dado existencial faz com que haja sempre um descompasso entre o desejo e a realidade, entre o sonhado e sua concretização. Nenhuma instituição, religião, lei e nenhum Estado conseguem enquadrar totalmente o ser humano, embora existam exatamente para enquadrá-lo em certo tipo de ordem. Mas ele desborda essas determinações. Daí a importância da violação do inédito para a vivência da liberdade e para que surjam coisas novas. Quando se dá conta dessa diferença entre a lei e a realidade, surge o sentido do humor. Dá vontade de rir, pois é tudo tão fora do bom senso, é tanto discurso proferido em pleno deserto que ninguém escuta nem observa que só podemos ter humor. No humor se vive o sentimento de alívio do peso das limitações e do prazer de vê-las relativas e sem a importância que elas mesmas se dão. Por um momento, a pessoa se sente livre dos super-egos castradores, das injunções impostas pela situação e faz uma experiência de liberdade. Por trás do humor vigora a criatividade, própria do ser humano. Por mais que haja constrangimentos naturais e sociais, sempre há espaço para se criar algo novo. Se não fosse assim, não haveria gênios na ciência, na arte e no pensamento. Em palavras mais pedestres: o humor é sinal de que nos é impossível definir o ser humano dentro de um quadro estabelecido. Em seu ser mais profundo e verdadeiro é um criador e um livre. Por isso, pode sorrir e ter humor sobre os sistemas que o querem aprisionar em categorias estabelecidas. E o ridículo que constatamos em senhores sérios que querem, solenemente e com ares de uma autoridade superior, quase divina, fazer dos outros cegos e submissos. Isso também causa humor. Acertado estava aquele filósofo (Th. Lersch, “Philosophie des Humors”, Munique, 1953, pág. 26), que escreveu: “A essência secreta do humor reside na força da atitude religiosa. Pois o humor vê as coisas humanas e divinas na sua insuficiência diante de Deus”. A partir da seriedade de Deus, o ser humano sorri das seriedades humanas com a pretensão de serem absolutamente verdadeiras e sérias. Elas são um nada diante de Deus. E existe ainda toda uma tradição teológica que vem dos padres da Igreja Ortodoxa, que falam do Deus lúdico, pois criou o mundo como um jogo para o seu próprio entretenimento. E o fazia, sabiamente, unindo humor com seriedade. Quem vive centrado em Deus tem motivos para cultivar o humor. Relativiza as seriedades terrenas, até os próprios defeitos, e é livre de preocupações. São Thomas Morus, condenado à guilhotina, cultivou o humor até o fim: pedia aos algozes que lhe cortassem o pescoço, mas lhe poupassem a longa barba branca. São Lourenço sorria com humor dos algozes que o assavam na grelha e os incitava a virá-lo do outro lado porque de um lado estava bem-cozido, ou santo Inácio de Antioquia, que suplicava aos leões que viessem devorá-lo para passar mais rapidamente à felicidade eterna. Conservar essa serenidade, viver em estado de humor e compreendê-lo a partir das insuficiências humanas são uma graça que todos devemos buscar e pedir a Deus.

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