Longa é ensaio sobre a solidão contemporânea

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Protagonista vivencia a solidão do anonimato nas grandes cidades
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Protagonista vivencia a solidão do anonimato nas grandes cidades

Pouco depois de terminar “A Alma do Osso” e antes de filmar “Andarilho”, os dois primeiros capítulos de sua “trilogia da solidão”, o diretor mineiro Cao Guimarães começou a pensar em formas de explorar a questão da solidão urbana. Foi quando ele releu “O Homem das Multidões”, conto de Edgar Allan Poe sobre um homem solitário no século XIX que segue pessoas na rua em busca de uma conexão.

A decisão de tornar contemporânea essa história resultou no longa homônimo que ele codirigiu com o pernambucano Marcelo Gomes (“Era Uma Vez Eu, Verônica”), exibido no último Festival de Berlim e que estreia hoje em Belo Horizonte. O filme guarda uma relação especial com a capital mineira, já que foi integralmente realizado aqui. Os personagens de Poe são transformados no condutor de metrô Juvenal (Paulo André), um chofer de multidões, isolado e encapsulado em uma cabine, e na controladora de tráfego Margô (Sílvia Lourenço), que só se relaciona com o mundo por meio de monitores e dispositivos.

“Sou daqui, mas nunca tinha feito um filme aqui”, confessa Guimarães. Ele ressalta, porém, que a cidade é mero pano de fundo, e não um personagem. Na busca de explorar dois seres solitários que poderiam viver em qualquer metrópole do mundo, o filme se embrenhou no caos do hipercentro, numa Belo Horizonte fora dos cartões-postais.

“A equipe buscou um lugar onde pudesse se misturar, onde a gente se constituísse parte da massa sem virar um set de filmagem, sem parar a rua. Era uma estratégia de ação, de roubar o momento sem começar a atuar nem perder a naturalidade”, explica.

Mais que os cenários locais, o que deve chamar a atenção do espectador é o formato em que “O Homem das Multidões” foi filmado. Ao contrário do 16:9 usual, o longa foi feito em uma janela quadrada 1:1. O formato ao mesmo tempo recorta e isola os protagonistas no quadro, ressaltando ainda mais sua solidão, e os oprime e aprisiona no meio do caos, quando há outros personagens em cena.

“No processo de lidar com essa nova janela, descobrimos a riqueza potencial do que estava ausente, do vazio do extracampo que convida a imaginação do espectador a completá-lo”, elabora Guimarães, explicando que a opção transforma a solidão de Juvenal e Margô em imagem.

A janela foi apelidada de “Instacope” no último Festival de Cannes, onde o longa “Mommy”, do montrealês Xavier Dolan fez uso do mesmo recurso. A referência ao Instagram é apropriada para “O Homem das Multidões”, que, na sua atualização do conto de Poe, usa a onipresença de redes sociais, monitores e dispositivos móveis como sintoma da solidão virtual de Margô.

“O fato de ser tudo sempre intermediado por uma tela faz com que o mundo perca demais em relação aos cinco sentidos. O ser humano é feito de várias coisas e você não cheira pessoas no Instagram, não olha nos olhos em um chat”, opina o cineasta.

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