Sonhos do moleque perene

“Gonzaguinha, O Eterno Aprendiz Eterno” estreia hoje em Belo Horizonte prezando pelas ideias em vez da polêmica

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Montagem. Em 1h30, Rogério Silvestre interpreta passagens dos 45 anos de vida e, principalmente, sentimentos de Gonzaguinha
Lorena Vinturini
Montagem. Em 1h30, Rogério Silvestre interpreta passagens dos 45 anos de vida e, principalmente, sentimentos de Gonzaguinha

Por mais que Gonzaguinha tenha recebido a alcunha de “cantor rancor” pela fixação pragmática em combater a ditadura militar no início dos anos 1970, o poeta censurado pelo DOPS em mais de 50 músicas deixou um pedido que nada tem a ver com protesto: “quando eu soltar a minha voz, por favor entenda”. É a partir desse clamor conhecido nos quatro cantos do Brasil que a obra e a vida de Luiz Carlos do Nascimento Júnior chega ao público a partir do poético musical “Gonzaguinha, O Eterno Aprendiz Eterno”, que estreia curta temporada em Belo Horizonte, hoje, às 21h, no Teatro Alterosa.

Sem ficar preso a aspectos cronológicos e polêmicos, o espetáculo foge do padrão dos musicais biográficos, como “Tim Maia – Vale Tudo” e “Elis”, que reproduzem cenas e diálogos inspirados em passagens importantes da história dos artistas. No caso de Gonzaguinha, a opção do diretor teatral Breno Carvalho, e do poeta paraibano Gildes Bezerra, que assina o texto do musical, foi levar ao palco as ideias amadurecidas do eterno moleque carioca, ao lado de conflitos que o artista aprendeu a amaciar ao longo de 45 anos – idade em que Gonzaguinha teve a vida interrompida por um acidente de carro na volta de um show no Paraná, em 29 de abril de 1991.

Por isso, marcas polêmicas, como a atormentada relação de Gonzaguinha com o pai Gonzagão, as apresentações agressivas do início da carreira, em plena TV Globo, até o rompimento com gravadoras em 1975 para “libertar sua música”, são passagens referenciadas no espetáculo, mas sem reproduções cênicas. “Isso está presente em forma de poesia, lirismo e músicas, claro. Mas não quisemos inventar diálogos e cenas para mostrar histórias fiéis de Gonzagão deixando o filho num colégio interno, Gonzaguinha sendo maltratado pela mulher do pai ou coisas parecidas. Quisemos trazer o sentimento do Gonzaguinha acumulado durante a vida toda dele, não fatos históricos isolados”, diz Breno Carvalho.

Dessa forma, o ator Rogério Silvestre interpreta um monólogo de 1h30, incorporando visões de mundo e a personalidade sonhadora de Gonzaguinha. As passagens incluem homenagens para o Rio de Janeiro, cidade Natal, e Belo Horizonte, onde o cantor viveu nos últimos 12 anos de sua vida, em uma casa no bairro São Luiz, na região da Pampulha, e onde compôs alguns dos seus maiores clássicos, como “Redescobrir”, imortalizado na voz de Elis Regina.

“Na capital mineira, ele desenvolveu o hábito de pedalar semanalmente. É esse tipo de detalhe que faz diferença para entender o que sentia Gonzaguinha em partes da sua vida”, diz Silvestre.

Mesmo não sendo parecido com o compositor carioca, o ator mineiro encara desde as primeiras manifestações artísticas de Gonzaguinha, ao criar o Movimento Artístico Universitário (MAU), em 1971, ao lado de Aldir Blanc e Ivan Lins, até seu rompimento com canções de protesto e o início da criação de um dos repertórios mais festivos e ricos da canção popular brasileira, entre as décadas de 1970 e 1980.

O musical passeia por quase toda a discografia de Gonzaguinha, desde o primeiro LP, “Luiz Gonzaga Jr.” (1973), influenciado pelo samba e o baião do pai ainda mal assimilado pelo compositor, até “Cavaleiro Solitário” (1993), último álbum de inéditas, lançado após sua morte.

Para interpretar as 16 canções que dão peso ao espetáculo, como “Explode Coração”, “O Que É o Que É”, “Recado” e “Começaria Tudo Outra Vez”, o ator Rogério Silvestre tem o auxílio da baiana Maíra Lins, destaque da cena popular de Salvador, e do mineiro Paulo Francisco Lins, sobrinho de Wagner Tiso e filho do guitarrista Fredera, ambos ex-integrantes da banda de apoio de Gonzaguinha. “Eu canto o repertório do Gonzaguinha desde mais novo, por influência familiar. Desde a estreia, em Itajubá, em 2011, a gente sente que o musical amadureceu, com o público sentindo o sentimento que queríamos”, diz Paulo.

Sessões

Detalhes. O musical “Gonzaguinha, O Eterno Aprendiz Eterno” será apresentado no Teatro Alterosa (av. Assis Chateaubriand, 499, Floresta), em curta temporada de apenas quatro sessões. De hoje a sábado, às 21h, e domingo às 20h. Os ingressos custam R$ 50 (inteira) e R$ 25 (meia-entrada).

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