Istambul, uma paixão (última parte)

iG Minas Gerais |

acir galvao
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A primeira vez em que fomos a Istambul, eu e meu marido, há 25 anos, foi totalmente por acaso. Numa manhã de verão italiano, na casa de minha sogra, ele me perguntou: “Quer ir à Turquia? Lá tem tapetes e cerâmicas maravilhosos...” Sem pensar duas vezes, aceitei de prontidão. Bem, sem pensar também nos detalhes, como o visto (na época exigido), estadia etc., etc. Simplesmente compramos as passagens e fomos... para o aeroporto de Istambul, onde ficamos “retidos” por um bom tempo. Não sei como a empresa aérea italiana nos permitiu viajar sem o documento, de cuja necessidade nem sequer sabíamos. Sem falarmos turco e sem conseguirmos nos expressar em inglês, o sujeito já não sabia mais o que fazer com o jovem casal que aportou ali, em plena época de ataques terroristas, sem visto, sem reserva de hotel e sem noção do que encontraria pela frente. O aeroporto estava um caos, com mais policiais que civis, pastores-alemães farejando tudo, metralhadoras e armamentos pesados apontando para todos. E eu lá, num canto de uma sala, ouvindo-os discutindo o nosso caso. “No, we don’t have visa!”, dizia pela quinta vez ao sujeito enfurecido. Em plena guerra civil, ou seja lá o que fosse, com ameaças de bombas para todo lado, eles realmente não sabiam o que fazer com a brasileira e o italiano naturalizado que ali desembarcaram. Com problemas mais sérios para resolver, decidiram nos liberar, afinal a última coisa que parecíamos ser era um “casal-bomba” suicida.  Livres e com as malas nas mãos, saímos em busca de um táxi. Pra onde? Vai saber!!! Simplesmente, não havíamos feito nenhuma reserva em hotel. Até que, no meio da calçada, topamos com um grupo de italianos que embarcavam com suas bagagens num ônibus fretado. Na cara de pau, perguntamos se poderiam nos dar uma carona até o hotel. Claro, em questão de segundos, decidimos ir para o mesmo hotel do grupo, que nem sequer sabíamos qual era. Chegamos ao Hilton, felizmente um ótimo hotel, com disponibilidade de quartos. Os italianos sumiram, e ficamos por nossa conta.  No primeiro táxi que pegamos, foi uma luta para nos entendermos, o sujeito falava turco e zero de inglês, português ou italiano. Nos entendemos na linguagem das cifras. Tantos dólares por um tour na cidade. E ele, empolgado, explicando tudo em turco, levou-nos para um belo passeio de carro. As ruas eram estreitas, e o transito, caótico. As casas tinham fiações do lado de fora, num emaranhado de fios pretos e desgastados que subiam pelas paredes. “Isto aqui deve ser a coisa mais incendiável do mundo!”, pensava, enquanto, com minha máquina fotográfica, registrava tudo. Após passarmos em frente a algumas mesquitas, terminamos nosso passeio nas portas do Grande Bazar – a feira livre mais impressionante que já vi na vida.  Composto por milhares de lojas, espalhados por cerca de 50 ruas, o bazar é um instigante labirinto, onde encontramos de tudo: tapetes, joias, couro, cerâmica, especiarias... Fiquei maluca, a riqueza dos detalhes das cerâmicas, dos tapetes feitos à mão, das bijuterias e dos enfeites coloridos, das almofadas, dos artesanatos da melhor qualidade, tudo isso, em meio às essências dos incensos, inebriava meus sentidos. “Nunca mais quero sair daqui!!!”, dizia brincando, enquanto entrávamos nas lojinhas, cujos donos falavam português, italiano, inglês, ou seja lá o que fosse, para vender o seu peixe. O difícil era nos livramos deles. Fechavam a portinha, puxavam um banquinho e nos ofereciam chás em copos sujos. Desmontavam a loja inteira aos nossos pés, por mais que tentássemos nos desvencilhar da situação. Os preços começavam no patamar de cima, até chegarem ao primeiro andar. Na Turquia, assim como na Índia, a pechincha faz parte da cultura. Alemães e ingleses, não habituados à prática, costumam comprar por um valor muito acima do praticado no mercado, já os latinos, familiarizados com isso, adquirem por valores bem abaixo do inicialmente proposto. E como são divertidas essas negociações!!!  Comerciantes de natureza, os turcos são extremamente simpáticos, sabem como ninguém conquistar os clientes e, para facilitar as coisas, ainda falam a sua língua, seja lá de qual nacionalidade você for.  Foram ótimos os dias passados na cidade a que jurei voltar. Desta vez, uma viagem marcada com antecedência, estudada com carinho, sem sobressaltos e surpresas no aeroporto, hoje moderno e sem guardas com metralhadoras.  Já no primeiro contato percebi que as coisas haviam mudado bastante. Ruas arborizadas, floridas, avenidas largas, prédios modernos. Uma Istambul mais colorida, mais limpa, mais organizada, embora a essência fosse a mesma, com sua gente alegre, simpática, vendedores poliglotas, taxistas falantes (nem sempre honestos), chamadas para as orações que ecoam cinco vezes ao dia, fazendo-se ouvir dos minaretes espalhados pelas inúmeras mesquitas.  E, finalmente, o Grande Bazar. Descobri que também foi modificado, camelôs em meio às lojas não são mais permitidos, diminuindo bastante a confusão que reinava. Ruas cobertas abrigam as centenas de lojas espalhadas numa passarela de cores, odores e beleza. Nos corredores, só de nos verem, já nos identificam: “Brasileiras? Vamos entrar!” E, quando entrávamos e mostrávamos interesse em algum produto, a história se repetia: banquinho, chá de maçã num copinho não tão asseado, a loja inteira sendo desmanchada aos nossos pés, e vendedores falantes, sorridentes e, ainda por cima, torcedores, lamentando o desastre do 7 a 1, pois eram grandes admiradores da nossa seleção. Penso que, se fosse com os argentinos e alemães, o papo não seria o mesmo. Segundo a nossa guia, não; turcos realmente gostam dos brasileiros, afinal, entre a formalidade germânica e a descontração de nossa gente, a identificação conosco é visivelmente maior. Gostaria de comprar horrores. Cerâmicas coloridas, pratos, xícaras de chá, tudo em detalhes florais pintados à mão, almofadas, lenços, bijuterias, luminárias, chás de rosa, especiarias, tudo ali, à vista, nos instigando a cometer excessos.  Quero presentear o mundo todo – amigos e familiares – com caixinhas e delicadezas pintadas à mão. E, como não poderia deixar de ser, os famosos olhos turcos, também chamados de “olhos gregos”, que, em forma de penduricalhos ou chaveiros, segundo dizem, trazem proteção, principalmente contra “olhos gordos”. Comprei vários.  E aqui estou de volta, em frente ao computador nesta tarde fria e chuvosa. Saudosa do calor de Istambul, de sua gente alegre, de suas músicas harmônicas, de seu mercado fantástico e belas mesquitas.

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