O adeus de João Grilo

iG Minas Gerais |

João Grilo, astuto e fanfarrão, recitava versos destrambelhados, arrematando impressões com a maior inocência. As lorotas de João provocam gargalhadas, mas, por pouco, não baniram de nossas escolas seu pai, o admirado romancista de “A Pedra do Reino”, imortal da Academia Brasileira de Letras, o genial Ariano Suassuna, que, ao falecer, na quarta-feira passada, aos 87 anos, deixa um dos mais ricos legados da história de nossa literatura. O banimento quase se deu, há alguns anos, quando um grupo que se dizia defensor do conceito “politicamente correto”, produziu uma cartilha financiada pelo governo federal na qual se registravam como discriminatórios verbetes e expressões comezinhas, como “comunista” e “anão”. O amontoado de besteiras apenas serviu para subir o tom das gargalhadas de João Grilo e Chicó. Ariano Suassuna, João Ubaldo Ribeiro (que também nos deixou, na semana passada) e Jorge Amado foram exímios intérpretes da alma nacional. Amparavam-se na linguagem para retratar o cotidiano. Quem os vê como discriminadores, senão radicais ou ignorantes? Quem não fica indignado em ver Monteiro Lobato no paredão da censura? Acusam-no de ser preconceituoso por retratar “a preta” Tia Anastácia. Não há como imaginar personagens que tanto encantaram crianças e adultos fazendo discriminação, ao fim do século XIX, como enxergam os patrulheiros de plantão. Jorge Amado, em “Capitães de Areia”, apresenta João Grande, “negro de 13 anos, forte e o mais alto de todos. Tinha pouca inteligência, mas era temido e bondoso”. Censurar a expressão de uma época é apagar costumes, jogar as tradições na fogueira de Torquemada. A polêmica sobre o uso do lexema “negro” na literatura se expande na esteira de um debate enviesado sobre direitos humanos. Ocorre que as lutas pela igualdade têm jogado na vala comum da discriminação manifestações de todo tipo, mesmo as que retratam ciclos históricos. Em “Escrava Isaura” (1875), Bernardo Guimarães escreve trechos que hoje estariam no índex proibido: “não era melhor que tivesse nascido bruta e disforme, como a mais vil das negras?” À guisa de conclusão, o celebrado Fernando Pessoa: “o espírito feminino é mutilado e inferior; o verdadeiro pecado original, ingênito nos homens, é nascer de mulher”. Arrematado por Shakespeare, que narra, em “Otelo”, o drama de Brabâncio deixando a filha livre para escolher o marido que mais lhe agradasse. A donzela escolheu um mouro. Otelo foi contratado para matá-lo. Toda essa moldura vem à tona no momento do adeus a Ariano Suassuna, fiel intérprete do espírito da linguagem. Dizia ele que o português é a linguagem mais sonora e musical do mundo. Daí a necessidade de expressá-la com as nuances das ruas, com seus personagens e sem a gramática que ajusta as curvas da língua, um ato antidemocrático. Que o desaparecimento de Ivan Junqueira, João Ubaldo, Rubem Alves e Ariano Suassuna nesta triste quadra reforce a convicção de que não podemos ceder um milímetro aos organizadores da “nova cultura”. João Grilo implora.

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