Academia dos poetas mortos

iG Minas Gerais |

Nesta última quinzena do mês que se encerra amanhã, o Brasil e a Academia Brasileira de Letras perderam três de seus maiores vultos. Uma pena... Eu nunca tinha prestado atenção na fragilidade humana dos imortais da ABL, igual à nossa, pessoas comuns. Talvez eu estivesse querendo me convencer dessa imortalidade e só agora tenha ficado ciente de que a imortalidade é da obra literária de cada um deles, e não da pessoa. Como diz uma amiga, “no fundo, no fundo, a gente sabe disso, só que não presta atenção”. E é mesmo. Pensando bem, onde será esse fundo, que nossa teimosia torna tão profundo? Pensar pensando é bom e fácil, e eu gosto... João Ubaldo, sem aviso prévio, morreu de doença que grassa no Nordeste, uma tal de “de repente”, que ataca por motivo secreto e de surpresa. “De repente” é um mal perverso e, ao mesmo tempo, confortador, pois a passagem se dá sem sofrimento. A morte morrida em tempo prolongado é sofrença, é ruim, porque dói mais nas pessoas do seu bem-querer... Vou morrer um dia qualquer, sem saber que a morte chegou. Eu lia João sempre aos domingos. Certamente, vou ficar pensando nele, por enquanto, sem precisar dormir na praça. Quando se dorme na praça, quase sempre é pensando nela... O mineiro Rubem Alves, que era uma pessoa tão discreta quanto amável, tinha aquela fisionomia que podia fazer qualquer um pensar: “Parece que conheço aquele senhor...”. Na expressão dos mais novos, da geração celular: “Conheço aquele cara...”. Rubem será lembrado não só por sua obra como educador, filósofo, psicanalista e teólogo, mas, principalmente, por sua enorme generosidade, virtude própria dos que sabem tudo da vida. Finalmente, mas não por último, já que ficaram vivos muitos imortais que ainda não sabem que já morreram, assinalo a partida do querido Ariano Suassuna, paraibano de nascimento e pernambucano de vivência e preferência. O povo nordestino vai sentir muita falta de suas aulas-espetáculo, forma que ele usava para divulgar cultura. De suas obras, guardarei sempre a lembrança de Chicó, um dos personagens do “Auto da Compadecida”, história que me tocou fundo, obra-prima da cultura das terras áridas do Nordeste. Não sei por que, mas sempre achei o Nordeste do Brasil a síntese do nosso povo e do país. Talvez porque meu querido pai fosse um cearense da gota serena... Há mais de 20 anos, sei que saudade não mata a gente. E desse naipe foram também, para a Academia do Céu, Castro Alves e o Quintana, que, em vida, assumiu ser passarinho. Fica Manoel de Barros, o pantaneiro, que pensa e escreve pelo reverso do avesso e poeta com musgo incolor do nada... BRIGA. E, para terminar, falando de flores, é incrível que o Brasil se meta em briga de judeus e palestinos, assunto que nem Cristo resolveu. Era só o que faltava. Com razão, a resposta de Israel foi à altura da intromissão indébita: “O Brasil é um país anão”. Israel está quase certo, pois não é o país que é anão, mas a porcaria do governo petista. Falei...

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