Canibalismo pela internet

Espetáculos cariocas ‘Ato de Comunhão’ e ‘Homens, Santos e Desertores’, a partir de amanhã, com entrada gratuita

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

Visões de mundo. Yabeta e Blat expõem traços de suas gerações em texto de Mário Bortolotto
JOSE LINS DIVULGAÇÃO
Visões de mundo. Yabeta e Blat expõem traços de suas gerações em texto de Mário Bortolotto

O trabalho de um ator, ao longo de sua trajetória, é capaz de gerar conexões que nem ele próprio havia imaginado. Pode trazer inferências, referências subjetivas para seu público e desdobramentos peculiares. Pois foi justamente o que aconteceu com o ator Gilberto Gawronski. O crítico de teatro uruguaio Jorge Arías foi quem lhe apresentou o texto “Ato de Comunhão”, que agradou tanto ao ator que virou um espetáculo solo e chega a Belo Horizonte em temporada gratuita na Funarte. O espetáculo faz parte da Ocupação 3.0 do espaço.

“Ele conhece meu trabalho há muito tempo e viu uma montagem da peça, na Argentina, encenada pelo próprio Lautaro Vila (autor do texto). Ele me escreveu dizendo que a peça era a minha cara”, relembra Gawronski.

A peça mostra um homem que relembra três momentos de sua vida: a festa de aniversário de seus 8 anos, a morte de sua mãe e um jantar bastante peculiar com um homem que conhecera pela internet. A trama é livremente baseada no acontecimento real que ficou conhecido na mídia como o caso do “canibal alemão”. A peça revela uma faceta perturbadora ao mostrar ao público que o convidado para o jantar será, na verdade, o jantar. “Eu fiquei me perguntando porque o Arias achou essa peça a minha cara. Afinal, é a história de um canibal. Fiquei com um pé atrás”, se diverte o ator. “Mas acredito que tenha sido o fato de a obra falar sobre comportamento, sexualidade e fazer uma análise comportamental contemporânea. Assuntos que me interessam”, revela o ator.

“Ato de Comunhão” também tem seus traços contemporâneos ao discutir as relações virtuais estabelecidas pela Internet e pelas redes sociais, e a importância que isso pode ganhar na vida das pessoas. Além disso, o texto de Vila é todo escrito em versos livres (sem rimas), quebrando uma rotina contemporânea de dramaturgia em prosa. “Por incrível que pareça, os versos dão uma cadência impressionante para o trabalho”, garante Gawronski. “É uma carpintaria cênica muito bem composta. Ele vai conduzindo o público de uma maneira sedutora, sem revelar essa questão do canibalismo. Pois, se a plateia percebe que o sujeito é maluco, ela se afasta e passa a ver a história de longe”, completa.

Sozinho em cena, o artista se inspirou na performance, nos happenings e nos quadros do pintor Francis Bacon para compor o personagem. Além disso, contou com o olhar externo de Warley Goulart, que assina com ele a direção da peça. “Foi importante porque ele vem de um grupo que trabalha narrativas infantojuvenis (Tapetes Contadores de História). E é impressionante porque, como as histórias infantis trazem essa temática, as crianças já convivem com essa ideia de se comer o outro. É o caso de ‘João e Maria’, ‘Chapeuzinho Vermelho’. Não é à toa que as pessoas dizem ‘que vontade de morder’ quando veem uma criança fofinha na rua”, ressalta.

Conflito Geracional. Outro espetáculo que se apresenta gratuitamente na Funarte é “Homens, Santos e Desertores”, que traz a dupla Ricardo Noblat e Nelson Yabeta vivendo personagens de duas diferentes gerações debatendo sobre a vida e suas preferências. O texto de Mário Bortolotto traz referências literárias e musicais no embate dos personagens.

Agenda

O quê. “Ato de Comunhão”

Quando. Amanhã, sexta e sábado, às 20h

O quê. “Homens, Santos e Desertores”

Quando. Domingo, às 18h e às 20h

Onde. Ambos na Funarte (rua Januária, 68, Floresta)

Quanto. Gratuito

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