Reencontro com o ás Millôr

Lançamentos e relançamentos revivem a obra de Millôr Fernandes, que ganha homenagem na Flip a partir de hoje

iG Minas Gerais | Júlio Assis |

Desenho de Millôr que está no livro “100 100”
ACERVO MILLÔR/IMS
Desenho de Millôr que está no livro “100 100”

A feliz definição mais recente sobre quem foi Millôr Fernandes (1923-2012) vem do escritor Antonio Prata, que sintetiza: “Nosso maior humorista, capaz de bater bola por mais de sete décadas com centenas de milhares de leitores, espraiando seu talento em prosa, verso, traço e cores do Oiapoque ao Chuí”.

O texto de Prata está na apresentação do relançamento de “Esta É a Verdadeira História do Paraíso”, clássico que é uma das muitas reedições do autor e desenhista que saem agora (confira abaixo), a reboque das homenagens póstumas ao escritor na Festa Literária Internacional de Paraty, que começa hoje e vai até domingo na charmosa cidade litorânea do interior do Rio de Janeiro.

A versão millordiana do paraíso é apenas uma das quatro obras que a editora Companhia das Letras coloca em circulação. Já estão nas livrarias também o primeiro livro do autor, “Tempo e Contratempo”, de 1956, o antimanual de tradução “The Cow Went To The Swamp – A Vaca Foi pro Brejo”, da década de 1980, e o volume “Essa Cara Não Me É Estranha e Outros Poemas”.

Com seu humor corrosivo nos textos e desenhos, o autodidata Millôr deixou uma marca provocadora na cultura brasileira em suas publicações em revistas, jornais, livros, textos para o teatro e traduções. “Millôr foi consagrado em vida, mas nunca é demais manter vivas a memória e a obra de um dos maiores gênios do país. Ele foi um artista completo, um humorista inigualável, um pensador fora de série, nosso filósofo mais divertido”, afirma o jornalista escritor Sérgio Augusto, sobre os relançamentos e as homenagens da Flip.

Frasista. Augusto atuou em outro livro, que será lançado amanhã na Festa de Paraty pelo Instituto Moreira Salles (IMS): “Millôr 100 + 100 – Desenhos e Frases”. Ele assina a seleção de cem máximas desse exímio frasista, combinadas ao mesmo número de desenhos escolhidos pelo caricaturista Cássio Loredano.

Esse trabalho é a primeira exploração do acervo do artista que foi entregue aos cuidados do IMS no Rio de Janeiro. São quase 8.000 itens entre desenhos em diversas técnicas, além de documentos pessoais, recortes de jornais e revistas e manuscritos.

No papel de consultor da parte visual dessa herança, Loredano procurou os desenhos que mais dialogavam com as frases. Ele defende que a obra gráfica de Millôr precisa ser mais conhecida e nesse sentido prepara uma mostra para o ano que vem. “Será uma grande exposição de desenhos com lançamento de seu respectivo catálogo, em setembro de 2015 e que depois vai circular pelo Brasil. Os textos dele estão todos publicados em livros, frases, aforismos, peças, traduções, com, talvez, alguma pouca coisa inédita. Já os desenhos estão, a maioria ainda, nas mapotecas. Quer dizer, saíram uma vez nos jornais e revistas, mas não foram reunidos depois em livro”, justifica.

Vanessa Ferrari, editora da Companhia das Letras que ficou responsável pelos quatro livros, comemora a oportunidade de publicar Millôr. “Os títulos dele estão, em sua maioria, com a L&PM e a Nova Fronteira, mas a agente literária Lúcia Riff e os herdeiros nos propuseram avaliar um acervo que estava fora de catálogo e sem compromissos com outras editoras, o que nos possibilitou fazer essa seleção ”, explica ela.

A propósito, a L&PM também reeditou agora “Millôr Definitivo: A Bíblia do Caos”, e a Nova Fronteira não fez por menos, colocando no mercado os volumes “Guia Millôr Fernandes da História do Brasil de Cabral a Lula”, e o infantojuvenil “Poesia Matemática”.

Se em sua arte Millôr era um feroz crítico da nossa realidade, em sua produção mostrou-se organizado e metódico, arquivando bem a sua obra, como mostra o acervo entregue ao IMS. Assim ganham os admiradores, que têm disponíveis esse tesouro criativo.

Desenho de Millôr que está no livro “100+100”

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave