Capacidade moral e questões de moralidade: um grande debate

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DUKE
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Alice e Manuela, duas leitoras do meu livro “Então, Deixa Chover”, sugeriram um texto sobre a afirmativa de que a capacidade moral é genética. Ambas possuem filhos diagnosticados como portadores de transtornos disruptivos do comportamento, um de 16 e outro de 18 anos, e jamais souberam que a doença deles é tratável, mas pode não ter cura. Eu lamento. Sou solidária com o sofrimento delas. Depois de muito pensar, decidi não escrever algo inédito. Já disse tudo de científico que há em “Então, Deixa Chover”. Transcreverei um trecho do meu romance pertinente ao tema. “... E as memórias teimam em aparecer... “– Não tenho dúvida de que a capacidade moral é genética. Pessoas como nossos filhos nascem sem capacidade moral! Tanto é que eles fazem as pessoas sofrerem; quando crianças, são cruéis com animais e não sentem remorsos, porque são incapazes de sentir culpa! Observar meu filho por 33 anos deu-me essa certeza. “– Não entendi. Ora, as questões da moralidade são culturais! “– As questões da moralidade, sim! De fato são culturais. Por suposto, todos os seres humanos as apreenderiam. Há seres humanos incapazes de apreender conteúdos culturais morais. Casos do seu filho e do meu! E sabe por quê? Porque eles nasceram sem o locus da moralidade em seus cérebros. É o que penso. Estou convencido disso. E a ciência no futuro dirá que estou certo. Faça pelo seu filho o que de melhor estiver ao seu alcance, não com o intuito ou o sonho de tratá-lo, pois não há como. Somente para tornar o seu viver menos doloroso para ele. Não sonhe jamais em curá-lo, porque isso será uma fonte inesgotável de sofrimento. Ame-o como ele é, sempre que puder. É que há vezes e momentos em que a gente os desama. Entende-me? “São fragmentos de conversas com o meu psiquiatra. Conviver com ele foi uma escalada íngreme, mas gerou em mim uma força descomunal diante do sofrimento. Em primeiro lugar, colou-me com os dois pés bem fincados no chão. Há tratamento, mas não há cura. Em momentos de risco de vida para o doente e/ou para a família, é ético interná-lo. Tão somente para conter o risco de suicídio ou de assassinato. “– Pessoas como o meu filho e o seu fazem qualquer coisa para satisfazer seus desejos. São invejosos e megalomaníacos, tal qual portadores de Transtornos de Personalidade Antissocial (TPAS), o que às vezes torna, na prática, difícil diferenciar quem é bipolar de quem tem TPAS. “– Eu sei. E como sei! “– São incapazes de seguir as regras de convivência social. Portanto, morar em lugares mais isolados é sempre uma boa pedida para bipolares, quando querem. No entanto, os TPAS basicamente se exteriorizam na prática como falta de censura e falta de consciência do que se pode e do que não se pode fazer. Gente assim, se não se envolve com álcool ou outras drogas, até pode levar, sob supervisão, uma vida normal de trabalho, desde que seja seu próprio patrão. É a situação de que ele está no comando. Ele dá as ordens... Estou dizendo que portadores de TPAS possuem um cérebro que funciona de modo diferente. Aceite! Ah, para crianças e adolescentes o diagnóstico se enquadra em um dos transtornos disruptivos do comportamento, ou seja, os chamados ‘comportamentos antissociais’ – o transtorno desafiador e de oposição, o Transtorno de Conduta e o Transtorno de personalidade antissocial. E, para maiores de 18 anos, o diagnóstico de Transtornos de Personalidade Antissocial. Enfim, cada pessoa com suas tormentas...”.

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