Pimentinha ou princesinha?

Ao estilo Broadway, espetáculo sobre Elis Regina vem a Belo Horizonte entre aplausos de pé e fantasias rechaçadas

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Atuação.Com 20 atores em cena durante três horas de espetáculo, “Elis, A Musical” traz Laila Garin como destaque no papel da pimentinha
Caio Gallucci/Divulgação
Atuação.Com 20 atores em cena durante três horas de espetáculo, “Elis, A Musical” traz Laila Garin como destaque no papel da pimentinha

SÃO PAULO. Os aplausos são ensurdecedores, com gente sorrindo de olhos fechados, mesmo após o Teatro Alfa, em São Paulo, sofrer um pique de luz por dez segundos, deixando a atriz Laila Garin segurar no gogó seco a interpretação de Elis Regina. Aí poderia estar a prova de um espetáculo sóbrio, que se mantém até com imprevistos técnicos. Mas apesar de arrancar sentimentos nostálgicos pontualmente, “Elis, A Musical” se prende a amarras plásticas da Broadway com tom de “faz de conta”, simplificando os conflitos essenciais de uma pimentinha enérgica ao extremo. Recebido com flores no Rio de Janeiro no ano passado e rechaçado em São Paulo neste ano, a história de Elis Regina contada em megaprodução da Aventura Entretenimento chega a Belo Horizonte em setembro (ver quadro), para iniciar a turnê nacional do espetáculo. Com direção do estreante em musical Dennis Carvalho e texto de Nelson Motta e Patrícia Andrade, a apresentação abre brecha para conhecer parte da história de Elis Regina, ainda que sua essência – com os defeitos, as chatices e a “bipolaridade” – seja sucumbida do palco sem qualquer pesar.

Sem dúvida, a atriz Laila Garin é o ápice arrebatador da encenação – tanto que faturou o Prêmio Shell de teatro pelo papel. Escolhida entre mais de 200 candidatas, a baiana de olhos azuis e volumosos cachos ruivos, passeia com segurança desde a timidez da gaúcha Elis Regina aos 19 anos, recém-chegada ao Rio de Janeiro, até as explosões comportamentais da pimentinha, com direito a muitos palavrões nos diálogos. “Eu demoro 1 hora na caracterização, aquecimento de voz e tudo o mais, porque não sou parecida com ela. Mas eu sabia que o Dennis não queria uma cópia da Elis. Então, o que fiz foi chegar perto dela o máximo que pude, mas trazendo uma lembrança, não uma recriação. Os palavrões mesmo, digo como se estivesse em casa, para soar mais natural, não tanto como a Elis falava, mas com a naturalidade dela”, diz a atriz. Responsável por entoar um repertório difícil com a marca singular de Elis Regina, a atriz baiana dá conta de vibrar alto com a boa seleção da diretora musical Delia Fischer, que inclui “Arrastão”, “Madalena”, “Casa no Campo”, “Fascinação”, dentre outras.

Mesmo com a presença imponente de Laila Garin, a pergunta “quem foi Elis Regina?” está longe de ser respondida no musical, até mesmo por figuras como Jair Rodrigues (Ícaro Silva), Tom Jobim (Leo Diniz) ou Henfil (Peter Bos). Isso porque as escolhas de Denis Carvalho, amigo da pimentinha, e Nelson Motta, que chegou a ter um caso com a cantora, recortam a vida de Elis Regina para um lado festivo, recheando o texto e boa parte das cenas com piadas televisivas. Assim, os conflitos com os pais e as memoráveis brigas com o primeiro marido, Ronaldo Bôscoli, vivido por Tuca Andrada, são resumidas em ofensas lúdicas e corriqueiras entre os personagens.

Além disso, enquanto Milton Nascimento, Ivan Lins, Renato Teixeira e Zé Rodrix – todos com letras lançadas por Elis Regina – ficam de fora do espetáculo, a jornalista e apresentadora Marília Gabriela ganha considerável espaço na pele da atriz Maíra Charken, em interpretação caricata que leva a plateia mais uma vez às gargalhadas. O ator Cláudio Lins, filho de Ivan Lins, que incorpora César Camargo Mariano, segundo marido da cantora, avalia que a fantasia é necessária para contar a história da pimentinha. “Não dá para biografar a vida toda da Elis no musical de forma crua, tem que haver um filtro para o espectador porque não fizemos um documentário. Quem ficou de fora, não compromete a história de vida da Elis, que é inspirada na fantasia norte-americana do encantamento”, avalia.

Em cerca de três horas de musical, esse encantamento supera tanto a artista que a morte de Elis Regina sequer é mencionada, como se o dia 19 de janeiro de 1982 fosse tratado como um “acidente”, e a mistura fatal de uísque e cocaína pudesse ser substituída pelo lirismo. Mesmo que Laila Garin acerte o ponto da emoção ao interpretar a última entrevista de Elis Regina, a parte humana da maior cantora do Brasil, tida como contraditória e irônica, desaparece frente a uma produção feita essencialmente para rir.

O repórter viajou a convite do musical

Ingressos

Detalhes. “Elis, A Musical” deve ter a venda de ingressos iniciada apenas na próxima semana, em Belo Horizonte. A princípio, as apresentações na capital mineira estão agendadas para os dias 11, 12 e 13 de setembro, no Palácio das Artes. O valor dos ingressos ainda não foi divulgado.

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