Mais recursos para saúde não garantem melhor atendimento

O TEMPO revisitou cinco cidades após três anos da publicação de reportagem e encontrou as mesmas queixas

iG Minas Gerais | Aline Diniz |

No hospital municipal, O TEMPO também viu macas no corredor
leO fontes - 11.7.2014
No hospital municipal, O TEMPO também viu macas no corredor
Em 2011, a equipe de O TEMPO visitou hospitais e unidades de pronto-atendimento de Sabará, Santa Luzia, Betim, Contagem e Ribeirão das Neves, na região metropolitana, e constatou vários problemas estruturais denunciados na série de reportagens “Saúde Agoniza”. Três anos se passaram, os mesmos lugares foram visitados, e muitas inadequações persistiram ao longo do tempo, mesmo com maior aporte de recursos na área em algumas dessas cidades.   Durante a permanência nesses locais, de 10 a 14 deste mês, a reportagem ouviu pacientes que apontaram demora no atendimento, falta de equipamentos, carência de remédios, poucos médicos e instalações precárias. O pediatra e secretário-geral do Sindicato dos Médicos de Minas Gerais (Sinmed), Fernando Mendonça, acredita que há problemas de gestão da rede pública na região metropolitana.  “Não estão preocupados em dar à população o atendimento que ela merece. Nesse período, as soluções apresentadas não foram satisfatórias”, afirma. O médico, que trabalha no Sistema Único de Saúde, acredita que o cenário no decorrer desses três anos “está igual ou pior”. Recursos. Em Ribeirão das Neves, por exemplo, foram investidos em recursos municipal, estadual e federal o equivalente a R$ 64,8 milhões, em 2011. Passou para R$ 94,4 milhões, em 2012, e R$ 82,3 milhões no ano passado. Já na cidade de Betim, os recursos municipais cresceram R$ 30 milhões neste mesmo período, saltando de R$ 231,1 milhões, em 2011, para R$ 235,8 milhões, em 2012, e R$ 261,6 milhões, em 2013.  As prefeituras de Sabará e Contagem não informaram os investimentos dos anos anteriores. Em 2013, foram empregados, respectivamente, mais de R$ 34 milhões e R$ 329,3 milhões, sendo que, na segunda cidade, o recurso diz respeito à infraestrutura. Nos dois casos, o total se refere ao somatório dos montantes das três esferas de poder. Já a Secretaria Municipal de Saúde de Santa Luzia não informou nenhum número à reportagem, apesar de o dado ter sido requisitado no dia 1º de julho. Para o especialista em gestão pública Amir Khair, a área da saúde é carente em administração de recursos em todo o país. “Não adianta colocar mais dinheiro e não melhorar a gestão”. Ele aponta dois agravantes no setor: escassez de médicos e sobrecarga do setor público. “Os planos de saúde estão aumentando o preço. Pessoas mais velhas não conseguem acompanhar e vão para a saúde pública”. Sabará Em Sabará, os cerca de 130 mil moradores contam apenas com uma Unidade de Pronto-Atendimento (UPA), e a Santa Casa de Misericórdia só recebe pacientes do Sistema Único de Saúde (SUS) quando há o encaminhamento da UPA. A auxiliar de serviços gerais Juscelena Sousa Silva, 31, reclama da assistência da UPA Padre Lázaro Pereira Crispim. “Fiquei o dia inteiro aqui tomando soro. Cheguei às 6h e fui atendida ao meio-dia. Precisei esperar sentada em uma cadeira dura, não havia nem como deitar”. A Secretaria Municipal de Saúde informou que as reclamações não procedem e que o atendimento obedece à classificação de risco (protocolo Manchester), ou seja, casos considerados graves têm prioridade. A secretaria assegurou que há cadeiras “mais confortáveis” para a administração de medicação injetável, porém, em alguns momentos elas estão todas ocupadas. Ainda conforme a pasta, a UPA (24 horas) atua de forma integrada com o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que já consegue identificar a real necessidade do paciente quando vai prestar o primeiro socorro.  Ribeirão das Neves Depois de quase duas horas de espera, uma mulher de 45 anos, que pediu anonimato, deixou o Hospital São Judas Tadeu, em Neves, sem se consultar com um médico. “Tenho hérnia de disco e comecei com uma tosse seca há duas semanas. Eles avisaram que não há previsão de atendimento. Dois médicos estão trabalhando, mas um está ajudando em um caso grave. Vou embora”, disse a paciente enquanto descia a rampa da unidade. A auxiliar de cozinha Daiane Alves, 21, contou que já perdeu as contas das vezes que saiu sem atendimento do local. “Em casos de acidente, é melhor levar para o (hospital) Risoleta Neves (na capital). Aqui está sempre lotado e muitas vezes não há médicos. Obstetras não atendem todos os dias da semana”. A Secretaria Municipal de Saúde informou que o São Judas Tadeu está passando por obras e que, apesar de contar com obstetras, está à procura de mais profissionais. Sobre a demora, foi explicado que os pacientes são atendidos conforme a classificação de risco (protocolo Manchester).  Betim O filho do motorista Adriano França, 35, precisou ser internado no Hospital Regional de Betim por causa de uma fratura no braço. Depois de ficar no local de 13 a 18 deste mês, o adolescente, de 13 anos, saiu sem cirurgia. “Eles viram que estava torto (o braço) e pediram a internação. Ficou internado sem necessidade, e o braço está engessado”, reclamou. Na Unidade de Atendimento Imediato (UAI) Teresópolis, pessoas ansiosas lotavam a sala de espera. O auxiliar de serviços gerais Carlos Alberto, 50, contou que a demora no atendimento é recorrente. “Estou com dor no peito e dificuldade para respirar, mas a moça disse que vou ser recebido só depois das 19h” afirmou, por volta das 17h. A Secretaria Municipal de Saúde informou que o hospital oferece cirurgia ortopédica em, no máximo, seis dias. No caso do filho de França, após reavaliação, a equipe decidiu optar pelo tratamento conservador em vez da cirurgia. Em relação à demora, a secretaria informou que a ordem de consultas segue a classificação de risco. Contagem A Unidade de Pronto-Atendimento (UPA) JK estava lotada durante a visita da reportagem, no último dia 14. Mais de 30 pessoas esperavam atendimento enquanto outras se recuperavam e recebiam alimentação em macas no corredor. Por volta das 18h, a auxiliar de serviço Lúcia Helena Pereira, 49, se queixava de dores nas costas e no abdômen. Apesar de esperar mais de duas horas no local, Lúcia disse que conseguir consultas nos postos de saúde é ainda mais difícil. No hospital municipal, a equipe de O TEMPO também encontrou macas no corredor e relatos de demora no atendimento. Uma grávida disse que ficou mais de nove horas esperando a prescrição de um remédio e saiu sem o que precisava. Conforme a Secretaria Municipal de Saúde, os pacientes são atendidos conforme a classificação de risco. Quando os casos são avaliados de menor urgência, muitos vão embora. Sobre a maternidade, a secretaria assegurou que a unidade trabalha na “plenitude de sua ocupação, atendendo moradores e a população de outros municípios”.  Reflexos da capital O serviço de saúde ineficiente oferecido em cidades da região metropolitana reflete nas unidades hospitalares da capital. No Hospital Municipal Odilon Behrens, cerca de 20% do atendimento no pronto-socorro é de pacientes que moram na grande BH e no interior. A maioria dessas pessoas, conforme a assessoria do hospital, é proveniente das seguintes cidades: Contagem, Ribeirão das Neves, Sabará, Santa Luzia e Vespasiano. A maior parte das consultas é feita sem contato prévio. Essa comunicação anterior só ocorre quando o paciente é transferido de outro hospital para o Odilon ou quando a pessoa chega ao local em ambulâncias do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e do Corpo de Bombeiros. A assessoria de imprensa do Odilon não se manifestou com relação à falta de estrutura de outras cidades ou políticas para amenizar o problema. Segundo a nota divulgada pela assessoria de imprensa, essas responsabilidades são da Secretaria de Estado de Saúde e dos próprios municípios.  Santa Luzia Moradores de Santa Luzia são atendidos pelo Hospital São João de Deus. Uma jovem de 24 anos, que preferiu não ter o nome divulgado, levou o filho até o hospital no dia da visita de O TEMPO e contou que precisou comprar o medicamento prescrito, por não haver no local. “Ele desidratou por causa de uma virose e só recebeu alta depois que comprei o remédio Floratil, que não tinha no hospital”. Ela denunciou ainda que, em muitas ocasiões, os pacientes procuram ortopedista e cardiologista, mas não são atendidos por falta de médicos especialistas. O pintor Ademar Ferreira, 54, relatou que o hospital só tem condições de receber casos mais simples. “Os profissionais tentam fazer o possível, mas não há recursos”. Ferreira mora no bairro Bela Vista desde que nasceu e disse ter “sorte” por ter sido levado para um hospital da capital quando sofreu um Acidente Vascular Cerebral (AVC). “Se tivessem me trazido para cá (São João de Deus), eu teria morrido”. A reportagem entrou em contato com a Secretaria Municipal de Saúde por vários dias consecutivos, mas não obteve resposta.  Absorção no Risoleta Neves O Hospital Risoleta Tolentino Neves, em Venda Nova, na capital, informou, por meio da assessoria de imprensa, que a falta de estrutura em outras cidades resulta em um elevado número de pessoas de alguns municípios que buscam atendimento no pronto-socorro espontaneamente. Ribeirão das Neves e Santa Luzia são os municípios de origem da maioria dos pacientes de fora, cada um com 11%. Em seguida está Vespasiano, com 7%. Ainda conforme a assessoria, o hospital realiza um projeto com intuito de assegurar a continuidade do cuidado e do tratamento de pacientes com quadros mais complexos que ficaram internados no Risoleta. A ação tem o objetivo de criar um vínculo dessas pessoas com suas unidades de saúde locais, mesmo antes da alta hospitalar. Assim, o acesso ao atendimento nos municípios é garantido, fato que evita o agravamento clínico e reduz o número de pacientes que precisam ser internados novamente no Hospital Risoleta Tolentino Neves.

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