A serenidade cadenciada de um Negro Gato zen Com pitadas de jazz, soul e até rap, Luiz Melodia brinca com a bossa nova em novo disco “Zerima”

Com pitadas de jazz, soul e até rap, Luiz Melodia brinca com a bossa nova em novo disco

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

Conceito. Entre sambas inéditos e bossas choradas, Luiz Melodia transparece tranquilidade em novo disco
Marcelo Correa
Conceito. Entre sambas inéditos e bossas choradas, Luiz Melodia transparece tranquilidade em novo disco

“Eu sou o que você quiser, uma ilusão qualquer”. Esse é o cartão de visitas que Luiz Melodia apresenta ao reaparecer no mercado, 13 anos após seu último disco de inéditas, “Retrato de Artista Enquanto Coisa” (2001). “Zerima” (Som Livre), recém-chegado às lojas, parece driblar o espaçamento comum presente na discografia do compositor carioca, ao trazer um misto de canções inéditas e interpretações singulares de parceiros, em repertório de 14 músicas dedicadas à cadência do samba e da bossa nova.

Com a voz amaciada pelo clima de piano-bar genuíno do Leblon – Luiz Melodia segura a voz para não subir o tom em praticamente todas as músicas –, o Negro Gato da MPB abusa dos lamentos amorosos, principalmente nas duas parcerias de inéditas com Renato Augusto. Seja invocando a noite desafinada de uma escola de samba em “Dor de Carnaval”, com participação suave da cantora Céu, até os apelos febris despejados em “Coração de Um Homem Bom” (“Eu sem você vou me acabar na escuridão”).

Sem ficar preso em trilhas que caem como uma luva para folhetins de Manoel Carlos, Luiz Melodia conquista a bossa nova a ponto de trazer suingue a arranjos de piano, sax, flauta e metais da banda. “Caindo de Bêbado”, mais uma da safra apaixonada, desta vez em parceria com Rúbia Matos, flerta com assobios de reggae alusivos a “Don’t Worry Be Happy”, atestando o compasso sereno do Negro Gato. Enquanto isso, “Vou com Você”, outra inédita, bebe na fonte do samba de roda de Martinho da Vila, retratando um malandro apaixonado pela menina da favela. “Se eu pudesse, eu parava o trânsito / E de brincadeira, escondia as malas / E faria tudo para você não ir”).

Apesar da predominância de samba e bossa nova, o groove balançado daquele Luiz Melodia chamado de “maldito” pela indústria fonográfica nos anos 70 ao lançar o ousado “Pérola Negra” (1973) dá as caras em algumas canções, como um tempero nostálgico do disco. Em “Cheio de Graça”, solos de guitarra e de sax parecem invocar Tim Maia enquanto Luiz Melodia canta versos como “quero só você, sempre mais você”. Balanço parecido alimenta a alma da agitada “Moça Bonita”, que tem versos da mulher de Luiz Melodia, Jane Reis, para homenagear o Recôncavo Baiano (“balança como uma onda / caminha toda maneira / ela é filha de Peri, ela é filha de Ceci).

Outras pinceladas do passado do cantor carioca aparecem nas homenagens. A única aposta conturbada, “Maracangalha” (Dorival Caymmi, 1953), deixa de ser um clássico do baiano para ganhar ares joviais introduzidos pelo rap desnecessário de Mahal Reis, filho de Luiz Melodia, que faz um perfil-exaltação do Brasil em rimas intelectuais (“relicário afro/ Brasil, temos o caldeirão étnico-sociológico / cultura de povos que ergueram um país sublime”).

Apesar disso, o vigor de Luiz Melodia como intérprete é reconhecido com sutileza na repaginação de “Leros Boleros” (Sérgio Sampaio, 1973), e no resgate do bonito samba “Nova Era”. Composto e gravado por Ivone Lara e Délcio Carvalho em 2004, a canção esquecida por outros sambistas resume a essência do cantor que, apesar de demorar para aparecer com novas músicas, percebe as mudanças saudáveis que o tempo pode acrescentar ao seu som: “Agita minha fantasia / afasta essa melancolia / diz que o mundo está mudando”.

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