Sinais sobre o fim

iG Minas Gerais |

undefined
O baque das mortes literárias neste mês de julho está a latejar, com perdas insubstituíveis para a cultura brasileira. Logo no começo do mês foi o poeta e tradutor Ivan Junqueira, depois João Ubaldo Ribeiro, em seguida Rubem Alves, e, na quarta-feira passada, Ariano Suassuna. Costuro aqui algumas observações nesse rastro de despedidas.  Após a partida de Ubaldo, o jornalista e escritor Carlos Heitor Cony deu interessante depoimento na rádio CBN sobre esse seu colega na Academia Brasileira de Letras, que reproduzo aqui: “Eu já defini a Academia como um jardim de infância às avessas. Porque no jardim a gente é anônimo e conhece amigos que vão ficar para toda a vida. Na Academia a gente não é mais anônimo, mas encerra a série de amigos. Depois, dificilmente a gente cria novos amigos. O João Ubaldo está nessa categoria. Vai fazer muita falta. Eu não me arrependo de ter entrado para a Academia, mas há uma coisa chata nela, que é quando morre um de nós”. Pois além de Ubaldo, Junqueira já havia ido no início do mês e por último Suassuna, um luto triplo na Academia. Longe de buscar um humor negro, um parênteses porque não poderia desperdiçar o acaso de ter lido nesses dias, nos recentes relançamentos da obra do Millôr Fernandes, a seguinte frase: “A Academia Brasileira de Letras se compõe de 39 membros e um morto rotativo”. Em sua partida, o escritor e educador Rubem Alves comoveu pela última vez com a leitura de uma carta que ele deixou com um amigo, pedindo para ser cremado e que as cinzas fossem jogadas embaixo de um ipê-amarelo enquanto fossem lidos poemas de seus poetas preferidos, como Cecília Meireles e Fernando Pessoa. Rubem Alves relacionava os ipês-amarelos, uma de suas paixões, à solidariedade, “que nasce e floresce”. Pincei algumas declarações de um leve humor que abrandaram um pouco esses dias de nuvens negras. Segundo o colunista Ancelmo Gois, no jornal “O Globo”, a cantora Nana Caymmi reclamou: “Está morrendo todo mundo, daqui a pouco não vai ter mais ninguém para ir ao meu velório”. Antes da morte de Ariano Suassuna, um amigo meu, o arquiteto Flávio de Castro, escreveu: “Suassuna, largue de bobagem: não vá nessa conversa mole do João Ubaldo!” Mas não teve jeito, o baiano convenceu e levou o paraibano. Curioso é que uma das primeiras lembranças mais recentes que tive de Suassuna, logo que ele foi internado em estado grave, foi da polêmica por ele ter deitado no aeroporto de Brasília, enquanto aguardava um voo, em abril último. E agora leio que foi lançada uma campanha para criar uma escultura de Suassuna esperando deitado o voo no aeroporto.  Embora o escritor tenha evitado polêmica, dizendo que isso era um hábito seu, o texto da campanha lançada pelo avaaz.org petições da comunidade, elucida como foi vista aquela atitude. “Ariano Suassuna, assim como seus personagens, sempre lidou com a adversidade em tom de deboche. Em tempos de escritores imortais em suas becas aristocratas, seu gesto, por mais conveniente que tenha sido pra ele, é um sinal de desprendimento típico dos que habitam o mundo dos valores singelos”.  Ainda na semana passada, assisti a um show de Gilberto Gil em Sete Lagoas, pelo Inverno Cultural da Universidade Federal de São João del Rei. Tocava com ele o sanfoneiro sergipano Mestrinho. No meio do show Gil cantou a música “Lamento Sertanejo” e a dedicou a Dominguinhos, pelo primeiro aniversário de sua morte.  Gil contou que Mestrinho era discípulo muito próximo de Dominguinhos. Quando o músico pernambucano já estava inconsciente no hospital, Mestrinho se sentava ao lado do leito e ficava tocando a sanfona. Em determinados momentos, perguntava ao seu mestre se ele estava ouvindo. Pegava na mão de Dominguinhos e sentia que ele a apertava como resposta, aquiescendo e quem sabe pedindo mais. Mestrinho continuava a tocar até o quanto podia.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave