Frutos do ‘faça você mesmo’

Frederico Machado, criador da Lume Filmes, defende o cinema independente e busca finalizar o seu segundo longa

iG Minas Gerais | Carlos Andrei Siquara |

Obra. “O Signo das Tetas” (foto), road movie com temática existencial, sucede “O Exercício do Caos”, trilogia que vem sendo produzida por Frederico Machado
Lume Filmes
Obra. “O Signo das Tetas” (foto), road movie com temática existencial, sucede “O Exercício do Caos”, trilogia que vem sendo produzida por Frederico Machado

O cinema independente tem no diretor e produtor Frederico Machado, 41, um aliado para encontrar seu público. Conhecido pelo trabalho com a produtora, distribuidora e, mais recentemente, editora Lume Filmes, sediada em São Luís, no Maranhão, ele há quase 15 anos a mantém em funcionamento ao lado de outros entusiastas do gênero.

Seu nome está, assim, diretamente ligado à garantia de circulação de boa parte das produções desse segmento nas diversas salas do país. Além de atuar como interlocutor desse conteúdo no circuito nacional, em 2013 ele deu um novo passo com o lançamento de “O Exercício do Caos”, seu primeiro longa-metragem, e agora prepara a conclusão do segundo.

Enquanto dá continuidade a outros projetos, Machado está empenhado em finalizar o título que dá continuidade à trilogia inaugurada com “O Exercício do Caos”. Batizado “O Signo das Tetas”, a obra, como a predecessora, foi rodada sem recursos via edital ou leis de incentivo, o levando a buscar apoio na plataforma virtual Catarse.

A ideia é arrecadar doações, a partir do sistema de crowdfunding, no valor total de R$ 39.300 para concluir a narrativa, que adentra a realidade local do Estado onde o diretor nasceu, contando a história de um homem envolvido no reencontro com o seu passado.

“Como aqui (em São Luís) não há editais específicos para fomentar a produção audiovisual, nós não estamos encontrando outra saída. Várias empresas não quiseram bancar o filme porque ele é bem autoral e, se quisermos mover alguma produção de cinema desse tipo, ela tem que sair do nosso próprio bolso. Apesar de ter proporções pequenas, nós acreditamos muito no filme”, afirma Frederico Machado.

De acordo com ele, metade do custo de R$ 80 mil para viabilizar a criação já foi quitada pela produtora. É menos do que custou o longa anterior, orçado em R$ 110 mil. Para tirar do papel “O Exercício do Caos”, que circulou em mostras de São Paulo, Rio de Janeiro, Belo Horizonte, além de outras em países como Grécia e Alemanha, Machado conta ter topado correr alguns riscos.

“Embora o custo tenha sido um pouco alto para a gente, nós resolvemos acreditar na proposta e já começamos a ter algum retorno financeiro com a própria repercussão do filme, seja por meio de prêmios ou da venda de direitos para a televisão. Recentemente, por exemplo, fechamos contrato com o Canal Brasil. Mas como ainda não repomos todo o investimento feito nesse longa, recorremos ao Catarse para levarmos adiante ‘O Signo das Tetas’. Nós apostamos que o retorno deste vai ser positivo como aconteceu com o primeiro”, afirma.

Estímulo. A vontade de perseguir esses objetivos leva em conta não apenas um interesse pessoal. Para Machado, desde quando retornou a São Luís, aos 23 anos, após passar boa parte da vida no Rio de Janeiro, uma de suas maiores contribuições é provocar algum estímulo à cena audiovisual que ainda se revela incipiente ali.

Foi assim que, em 1998, abriu na cidade uma locadora de filmes – ainda hoje, de acordo com ele, em atividade –, e, dois anos depois, arrendou o Cine Praia Grande para manter de pé uma das poucas salas de cinema da cidade. Atualmente, ele diz administrar também o Cine Lume. Os espaços já receberam três edições do festival promovido pela Lume, mas, em razão da falta de patrocínio, Machado revela que o evento não deve acontecer.

“Todo nosso empenho é para afirmar que é possível fazer algo bem feito dentro da realidade que nós temos. São Luís é carente de investimentos nessa área e é muito necessário fazer com que as pessoas se sintam instigadas a produzir ainda que encontrem todas essas dificuldades. Nós esperamos que por meio dessas ações algumas mudanças na política cultural daqui acabem acontecendo”, pontua ele.

Desde quando a produtora começou a existir, sublinha Machado, ela se tornou uma das principais realizadoras da capital maranhense. “A atividade cinematográfica era praticamente inexistente quando resolvemos abrir essa iniciativa. Quase todos os curta-metragens realizados em São Luiz, a partir de 2000, foram feitos conosco, finalizados tanto em 35 mm quanto em vídeo. Por isso conhecemos e somos amigos de praticamente todo mundo que trabalha nessa área aqui”.

Ciente de que nos próximos anos o contexto pode não ser muito diferente, pois ele mesmo nota como de 2009 para cá vem diminuindo o circuito onde a cinema independente costumava circular no Brasil, o cineasta confia nas suas decisões. Ele acredita que o futuro será ainda mais segmentado, exigindo a busca de outra estratégias.

“Há um procura constante por filmes. Vamos continuar movidos por essa paixão que nos fazer ser reconhecidos. Mas é preciso pensar que algumas opções, com a difusão da internet, veio mudar esse panorama, e nós devemos dar outros passos oferecendo, por exemplo, vídeos on demand, transmitidos pela web”, conclui.

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