Agora na NBA, Bruno Caboclo 'quebra o gelo' no Canadá

Escolha do Raptors pelo atleta brasileiro foi criticado pela imprensa norte-americana especializada

iG Minas Gerais | AGÊNCIA ESTADO |

Reprodução
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Bruno Caboclo viveu uma overdose de emoções no dia em que foi escolhido para o Draft da NBA, em Nova York. Deu várias entrevistas e no dia seguinte viajou para Toronto para se apresentar ao Raptors. Ainda teve de passar em uma loja para comprar terno e camisas. Jantou e, por volta das 23 horas, já exausto, na véspera de sua apresentação à imprensa, resolveu aproveitar um dos confortos oferecidos pela franquia canadense: uma quadra aberta por 24 horas, só para se aclimatar.

A imprensa de Toronto não gostou de ver o gerente geral do Raptors, o nigeriano Masai Ujiri, escolher um jogador de apenas 18 anos, cru, como sua primeira escolha), na 20.ª posição geral. “Ele está a dois anos de estar a dois anos...” (de amadurecer), escreveu o comentarista Fran Fraschilla, especialista em draft e basquete universitário da ESPN norte-americana.

No dia seguinte, já adaptado aos pontos de referência da quadra, mostrou parte de suas habilidades e a decisão de Ujiri foi mais bem assimilada. “O Ujiri tem essa estratégia na cabeça dele. Como já tem um time na mão, resolveu apostar num jogador de futuro e deixá-lo amadurecer dentro da franquia, não num jogador para já. Isso representou uma pressão sobre a diretoria. Mas essa pressão começou a se esvaziar assim que viram o Bruno treinar”, disse Eduardo Resende, agente do ala.

Na verdade, basta dar uma olhada em Caboclo para que alguém se convença de que está diante de uma pessoa com o físico ideal para o basquete. Ele tem 2,06m e o normal seria que sua envergadura (a distância da ponta do dedo médio de uma mão à outra) tivesse medida semelhante - mas ele tem 2,27m. “Qualquer um que entenda um pouco de basquete já via no Bruno um jogador com um potencial atlético fabuloso”, afirmou Breno Blassioli, técnico das categorias de base do Pinheiros-SP.

Por enxergar justamente isso, o Pinheiros fez de tudo para tirar Caboclo do Barueri-SP, o time em que o garoto, nascido em Osasco (SP) e criado em Pirapora do Bom Jesus (SP), começou a jogar. “Ele nos chamou a atenção numa clínica promovida pelo Tiago Splitter (jogador do San Antonio Spurs, primeiro brasileiro campeão da NBA). Foi difícil convencê-lo a deixar Barueri porque ele via o Pinheiros como inimigo. Mas nós conseguimos convencê-lo de que o clube tinha a estrutura ideal para ele se desenvolver”, disse Breno.

Assim que chegou ao Pinheiros, Caboclo foi tratado como jogador de alto potencial e passou por uma bateria de exames físicos e psicológicos. Muito abaixo do peso, teve acompanhamento nutricional e passou a fazer musculação. Além dos treinos na categoria sub-19, tinha preparação específica de fundamentos com o treinador José Luis Marcondes.

Os resultados não demoraram a aparecer. Caboclo foi campeão estadual sub-19 e sub-22, além de ter sido escolhido como MVP (jogador mais valioso) da clínica da NBA Basketball Without Borders (Basquete sem Fronteiras) na Argentina, em julho de 2013. O promissor jogador foi também beneficiado por um dos maiores acertos da Liga Nacional de Basquete, que organiza o NBB: a Liga de Desenvolvimento, que reúne jogadores de até 22 anos. Com um time sub-19, o Pinheiros ficou na terceira colocação. Bruno foi uma atração à parte, dando show na defesa, com rebotes e tocos, e no ataque. “Esse campeonato é muito legal. Todos puderam ver o Bruno. Ele tem um arremesso excelente sabe jogar, sabe marcar, sabe driblar”, apontou Blassioli.

Essas qualidades não passaram despercebidas por Claudio Mortari, técnico do Pinheiros na temporada passada. O veterano, que deu as primeiras oportunidades a um certo Oscar Schmidt no Palmeiras em 1974, quando o Mão Santa tinha apenas 14 anos, começou a escalar Bruno na Liga das Américas. “O Bruno é um garoto que gosta de aprender e de treinar. Tem um físico bastante privilegiado e a explosão da juventude. Seu desenvolvimento foi espantoso”, disse Mortari.

Um dos grandes méritos do Pinheiros foi não ter empurrado o garoto para jogar no garrafão. O mais comum, nas divisões de base brasileiras, é transformar a maior parte dos atletas com mais de 2 metros em pivôs.

OLHO EM 2016 - O surgimento de Caboclo é saudado especialmente pela seleção brasileira - ele já fazia parte da lista dos jogadores que poderiam ser convocados para o Sul-Americano adulto que está sendo disputado na Venezuela, mas foi dispensado a pedido, para iniciar a adaptação à NBA.

Para se ter uma ideia da carência brasileira na posição, o técnico argentino Rubén Magnano se viu obrigado a convocar o veterano Marcelinho Machado, de 39 anos, que havia se aposentado da seleção, para o Mundial. “Trabalharei muito para estar na seleção. É o meu objetivo agora, vestir a camisa do Brasil. Se tudo der certo, estarei pronto para a Olimpíada de 2016”, disse o tímido jogador, que prefere dar entrevistas por e-mail porque “trava” frente a jornalistas.

Enquanto isso, trata de se preparar, e com tranquilidade. “Não existe pressão no Toronto. Faço parte de um projeto, me deixam bem à vontade para treinar e me desenvolver”.

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