Passarela de competição social

Romildo Ribeiro de Almeida - Psicólogo clínico Especialista em Psicologia Analítica, Hipnose Ericksoniana e PArapsicologia

iG Minas Gerais | Aline Reskalla |

“Freud via no exibicionista uma defesa contra a angústia de castração. Existe uma atitude erótica no hábito de se exibir à medida que proporciona prazer quando somos admirados”
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“Freud via no exibicionista uma defesa contra a angústia de castração. Existe uma atitude erótica no hábito de se exibir à medida que proporciona prazer quando somos admirados”

“Freud via no exibicionista uma defesa contra a angústia de castração. Existe uma atitude erótica no hábito de se exibir à medida que proporciona prazer quando somos admirados”

Para o senhor, por que as pessoas se exibem tanto na internet? Algumas pessoas se exibem porque estão insatisfeitas consigo mesmas e sentem-se incapazes de atingir os seus próprios níveis de aspiração de maneira real, então lançam mão de uma fantasia de poder e de felicidade apresentando um estilo de vida que, na verdade, não condiz com a sua realidade, mas que serve para diminuir a frustração.

É como se dissessem: “Olha a vida que eu gostaria de ter”. Mas há também aquelas que se exibem puramente para causar inveja nas outras pessoas, como se mandassem recados em forma de fotografias expondo o seu poder e querendo evidenciar a distância que as separa dos outros.

O recado seria mais ou menos o seguinte: “Eu estou bem melhor do que você”. Existe uma propaganda que nos induz a confundir felicidade com prazer. Somos bombardeados com informações que retratam a felicidade por meio de imagens de pessoas jovens, bonitas, bem-vestidas e exibindo uma vida cheia de prazer.

Ninguém quer mostrar cenas tristes do seu dia a dia, mas, em vez disso, praias paradisíacas, viagens maravilhosas e momentos de descontração. Quanto mais inacessível for o alcance dos níveis de prazer que nos são impostos pelos meios de comunicação, tanto mais aumentará a necessidade de fantasiar.

Por que as redes se tornaram uma fonte de inveja, como defende? Antigamente as pessoas tinham inveja de objetos reais. Uma pessoa que entrava na casa de sua vizinha e via os seus móveis recém-comprados tinha ali uma fonte real de inveja.

Hoje, com a possibilidade infinita de expiar a vida alheia sem precisar entrar na casa de ninguém, basta um simples clique, e entramos nos aspectos particulares da vida dos nossos conhecidos. Então a possibilidade de fazer comparações aumentou desproporcionalmente.

Os móveis que víamos com os nossos próprios olhos deram lugar a imagens retocadas, montadas e arranjadas que não podem ser confirmadas nem desmentidas. Sendo assim, algumas pessoas se sentem inferiorizadas por ainda não terem alcançado a felicidade exibida em frases, imagens e mensagens dos seus contatos. Nesse sentido as redes viraram uma passarela de competição social.

O que gera, cientifica e psicologicamente, esse impulso incontrolável de se mostrar em público em situações que ostentam algum tipo de poder? Freud via no exibicionista uma forma de defesa contra a angústia de castração. Existe uma atitude erótica no hábito de se exibir à medida que proporciona prazer quando somos admirados pelos outros.

Como já disse acima, o ato de exibir-se parece amainar um pouco o nosso sofrimento decorrente das nossas frustrações. De certa forma, todos temos na nossa base de desenvolvimento psicológico a necessidade de exibição. Basta observar crianças brincando num parque para ver como uma tenta competir com a outra a fim de exibir os seus poderes físicos de pular mais alto, chutar, gritar cuspir etc. Todavia o exibicionista necessita mostrar de forma compulsiva os seus resultados.

Esse comportamento esconde uma grande ansiedade, não é mesmo?

Muitas pessoas publicam uma nova foto no Facebook e acompanham de hora em hora o número de curtidas e comentários. Quando esse número não atinge o nível imaginado, ficam angustiadas e passam a publicar mais ainda, gerando uma compulsão.

Esse mecanismo é semelhante ao que atua nos compulsivos por jogos, em que a pessoa busca ganhos cada vez maiores ou tenta recuperar as perdas.

O senhor costuma dizer que as redes sociais são um instrumento subutilizado a serviço da satisfação narcísica e egoística. Como mudar isso? Realmente é uma pena, pois as redes são canais muito úteis para a comunicação e para a organização de lutas sociais. Mas temos que ver também os fatores positivos. Por exemplo, a deposição de líderes ditadores que só foram obtidas graças às redes sociais com o seu poder amplo de mobilização. Famílias que estavam separadas havia tempos e que se encontraram na rede.

O Brasil é o país com maior número de pessoas conectadas em redes sociais. Recentemente, vivemos o pavor dos rolezinhos, que assombravam e ainda assombram frequentadores e donos de lojas de shopping.

Todavia, as manifestações públicas em tom de protesto contra a corrupção e o aumento de tarifas de transporte tiveram início a partir de convocações nas redes sociais, mostrando, assim, o poder dessa ferramenta.

Qual o impacto desse comportamento nos relacionamentos?

Os relacionamentos afetivos e sociais ficaram, sem dúvida, mais fáceis. Porém, ao mesmo tempo, pouco confiáveis, pois as pessoas se escondem atrás de perfis nem sempre verdadeiros.

É muito perigoso começar um relacionamento entre pessoas que se conheceram por meio das redes porque as redes facilitam a oportunidade dos mal-intencionados e até psicopatas. Os vínculos ficaram banalizados.

É possível ser altruísta hoje? Para ser altruísta, é preciso estar num patamar de satisfação mínima de necessidades. Pensar que uma pessoa que ainda não garantiu sequer a sua sobrevivência em nível de alimentação seja capaz de pensar nos outros é, no mínimo, patético. Não existe felicidade egoísta. Todavia, as religiões, muitas delas, embarcaram na teologia da prosperidade, que alerta unicamente para as conquistas em níveis pessoal e material. Quando até as religiões estão difundindo valores materiais, fica difícil pensar em altruísmo.

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