Quem se exibe demais online é mais insatisfeito com a vida

Comportamento considerado normal pode se tornar hábito arriscado com o excesso

iG Minas Gerais | Litza Mattos |

Privacidade. Há três meses, a corretora de imóveis Patrícia Borges preferiu abandonar o Facebook. “Acho que é perda de tempo”, diz,
MOISES SILVA/ O TEMPO
Privacidade. Há três meses, a corretora de imóveis Patrícia Borges preferiu abandonar o Facebook. “Acho que é perda de tempo”, diz,

Quem nunca publicou nas redes sociais uma foto de uma viagem, um vídeo especial ou um registro de uma festa, que atire a primeira pedra. Porém, esse comportamento que tem se tornado cada vez mais comum pode, muitas vezes, extrapolar os limites de privacidade e se tornar um hábito arriscado.

Um dos perigos é a inveja. Pesquisadores da Universidade Humboldt, em Berlim, na Alemanha, investigaram esse fenômeno e descobriram que 30% dos 357 universitários entrevistados admitiram sentir inveja ao ver posts sobre o sucesso e o lazer dos amigos.

Várias condições contribuem para que as redes sociais se tornem um terreno fértil para esse sentimento, segundo aponta a professora assistente em sistemas de informação e membro do estudo, Hanna Krasnova. “As semelhanças e a proximidade entre os usuários são gatilhos naturais de inveja. Além disso, a autopromoção fortalece ainda mais esses efeitos, uma vez que os usuários estão autorizados a ver apenas um lado da vida dos outros, o lado bom”, diz. Hanna conta que os estudos agora vão se dedicar a investigar os padrões de gênero e culturais da inveja no Facebook.

Consequências. Em outra pesquisa, feita pela Universidade de Michigan, o psicólogo norte-americano Ethan Kross conseguiu medir as consequências desse ciúme virtual na rede. Após acompanhar por duas semanas os usuários, Kross percebeu que quanto mais tempo passavam conectados, mais insatisfeitos com a própria vida eles estavam.

“Você está trabalhando e vê o amigo postando uma foto na praia, é claro que rola uma inveja. Isso me tirava energia. A gente cria a ilusão de que as pessoas estão curtindo a vida muito mais do que você, mas na verdade isso não acontece”, admite o designer gráfico Bruno Dutra, 35, que preferiu abandonar o Facebook há oito meses.

Dutra não está sozinho. Na contramão do exibicionismo, os usuários começam a trocar a plataforma por outras redes sociais. Segundo pesquisa da consultoria iStrategy, o Facebook já perdeu 6,7 milhões usuários apenas nos Estados Unidos, entre 2011 e 2014.

Outro exemplo de abandono é o da corretora de imóveis Patrícia Borges, 40, que há três meses preferiu cancelar o seu perfil. “Pela minha privacidade, achei melhor sair e usar redes sociais mais discretas. Acho cansativo postar muita coisa e os comentários desnecessários e infantis”, diz.

Análise. A velocidade da informação nos dias atuais faz com que qualquer um que utilize esses meios de comunicação torne-se uma ‘vítima’ potencial do exibicionismo virtual, segundo analisa o professor universitário Pablo Moreno.

“A euforia proporcionada por esses momentos impede que façamos uma reflexão sobre o que vamos compartilhar, e é comum irmos além da conta, expondo algo desnecessário ou faltando ao respeito com alguém por conta desse desejo de expressar uma opinião”, afirma.

Moreno lembra, no entanto, que essa curiosidade em saber da vida privada sempre aconteceu, mas as redes sociais criaram uma nova lógica: as celebridades anônimas. “Antes, o desejo de saber sobre o foro íntimo de alguém saciava-se pelas revistas e programas de fofoca sobre as celebridades. Com as novas tecnologias, qualquer sujeito torna-se uma celebridade potencial. Por isso, o que vemos não é um fenômeno novo, e sim atores novos”, afirma o doutorando em comunicação.

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