Hora de cair na real e revisar as projeções de crescimento

Tudo que o comércio está deixando de vender pode ser visto nos números ruins da indústria

iG Minas Gerais | Juliana Gontijo e Queila Ariadne |


Rafael conta que, mesmo com “descontões”, as vendas só caem
MARIELA GUIMARAES / O TEMPO
Rafael conta que, mesmo com “descontões”, as vendas só caem

O tratamento dentário do educador social Júlio César de Souza, 39, vai ficar para depois. O arroz e o feijão de melhor qualidade foram substituídos por marcas mais baratas. E aquela pizza do fim de semana? “Ah, já faz muito tempo que eu nem sei o que é isso”, conta Souza, que, diante do aumento de preços, teve que reduzir os gastos. O que ele sentiu no bolso já refletiu no varejo. Tudo o que o comércio deixou de vender pode ser visto nos números da indústria. Por esses motivos, que têm por trás os aumentos da inflação e dos juros, está aberta a temporada de revisão das projeções de crescimento.

Nesta semana, os analistas de mercado ouvidos pela pesquisa Focus do Banco Central baixaram para menos de 1% a estimativa de crescimento do Produto Interno Bruto (PIB). A projeção, que começou o ano na casa dos 2%, agora é de 0,97%. A própria equipe econômica do governo, que apostava em aumento de 2,5%, na semana passada admitiu pela primeira vez, neste ano, que o crescimento vai chegar no máximo a 1,8%.

Carros, construção, mercado imobiliário, varejo. Nos últimos dois meses, todos esses setores repensaram seus ganhos. A Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea) começou janeiro apostando em um aumento de 1,1% nas vendas. Agora, estima uma retração de 5,4% em relação a 2013. A Associação Brasileira da Indústria de Materiais de Construção (Abramat) baixou de 4,5% para 3% sua estimativa de alta no faturamento em 2014. Por enquanto, a Câmara de Dirigentes Lojistas de Belo Horizonte (CDL-BH) mantém a projeção de que o comércio crescerá 3,5% neste ano. Entretanto, segundo a economista da entidade, Iracy Pimenta, o viés é de baixa.

“O IPCA-15, que mede a inflação das duas primeiras semanas, recuou de 0,92% para 0,17% (de junho para julho), o que já é um bom sinal. Vamos esperar o segundo semestre para avaliar as vendas, antes de revisar a projeção”, explica Iracy. O IPCA é o índice oficial da inflação no Brasil. O governo trabalha com uma meta de 4,5% e um teto de 6,5%. No começo do ano, a previsão do mercado para o IPCA era de 6,01%. Agora, mudou para 6,44%. Só nos seis primeiros meses, acumula alta de 3,75%.

Adeus, compra por impulso. O gerente das lojas de calçados femininos Rafa’s, Rafael César de Almeida, afirma que nem mesmo as promoções estão convencendo o consumidor a gastar. “Nas lojas do centro, os descontos chegam a 50%, mas a média de recuo nas vendas em relação ao ano passado está na casa dos 10%. No outlet da Savassi, os preços estão até 70% mais baratos. Ainda assim, a queda nas vendas é de cerca de 30%”, diz. O lojista conta que as compras por impulso foram reduzidas. “E olha que trabalho com sapato, que agrada muito às mulheres”, observa Almeida.

Vai piorar

Para 2015. A previsão para a inflação de 2015, que começou janeiro com estimativa de 5,7%, foi elevada para 6,12%. Para os preços administrados , subiram de 5% para 6,5%.

Freio nos gastos

“O consumidor não está pensando só duas vezes antes de comprar. Está pensando três vezes ou mais. E olha que eu trabalho com sapato, que é um item que agrada muito as mulheres. Antes, eu tinha cliente que chegava a levar sete pares de uma só vez. Agora, elas só levam um.”

Rafael César de Almeida, Gerente da rede de lojas de calçados Rafa’s

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