A dificuldade de ser negro no Brasil

iG Minas Gerais |

Intervenção sobre foto anônima de Adão e cópia de sua assinatura
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O poeta Adão Ventura morreu em junho de 2004, e de lá para cá sua poesia vem sumindo. Que autores sejam apagados do mapa da história literária não é incomum, ao contrário. A imensa maioria despenca no abismo sem fundo do ostracismo apenas alguns anos depois da morte. É engano imaginar que o “gênio” louvado hoje pelo imediatismo da mídia mereça o rótulo de ótimo ou de bom depois de amanhã. Mesmo ser chamado de ruim é ainda “menos pior” do que inexistente. E a grande maioria não resiste sequer a uma década de desprezo. Vira sombra de sombra de sombra. NEGRO? PIOR AINDA   Sempre me espantou a segurança com que Maria Mazzarello Rodrigues, a Mazza, trilhou sua caminhada de militante e editora. Negra ela mesma, acreditou que a cor da pele não inferiorizava ninguém e foi em frente, desde a década de 1960, pelo menos, quando as pessoas tinham vergonha da própria cor. Alguma coisa mudou deste então, principalmente a visão de cada um como ser humano, mas não mudou muito, principalmente em cidades marcadamente racistas, tipo São Paulo e Belo Horizonte. Na época a que me referi, antes da revolução cultural pop, ser negro era quase como ser leproso. Vivia-se em guetos e os pretos conheciam seu lugar na pirâmide, ou seja, no degrau mais baixo, condenados à inferioridade social do nascimento à morte. NEGRO E CAPIAU   No poema “Viagem à capital”, Adão se descreve assim: “Eu, menino/ enfatiotado,/ roupa domingueira,/ botina nova/ vindo do Serro/ e, puxado por minha mãe,/ Sebastiana de José/ do Teodoro,/ desço da jardineira/ e entro no Bar/ e Restaurante Chapéu de Sol.”. Os nomes revelam muito. O avô paterno era Teodoro da Fazenda. O pai, José Ferreira dos Reis. A mãe, Sebastiana. Daí Sebastiana de José do Teodoro, forma comum em comunidades pequenas de nomear as pessoas pela ascendência. O espantoso, no caso de Adão, é que o negrinho enfatiotado de botina nova, neto pobre de escravo, tenha se tornado grande poeta. ESCASSEZ No site “Recanto das letras”, Nelson Marzullo Tangerini escreve que “a poesia negra brasileira não cessou com Luís Gama”, quase como se quisesse dizer que só houve poesia negra antes e logo após o Abolicionismo. Mas ele mesmo quase confirma o que insinua, ao nomear apenas, no século XX, dois poetas-papel, Cruz e Souza e Solano Trindade, e a seguir uma série de letristas e compositores populares, às vezes forçando a barra com o famoso “tinha sangue negro”, como se ter sangue negro ou índio não fosse comum a pelo menos 70% da população brasileira. CONVÍVIO   O que livrou Adão de ser apenas mais um preto-pobre foi a inteligência aguda, uma excepcional intuição estética e a vontade de sair do submundo. Tais atributos não são comuns, motivo pelo qual a imensa maioria dos pobres continua sendo pobre e a imensa maioria dos negros continua sendo preto-pobre. Escapar dessa armadilha socioeconômica exige pelo menos duas das qualidades acima. Para, além disso, se tornar um grande poeta, é preciso acrescentar o terceiro ingrediente, a intuição estética aguçada. Foi assim que Adão saiu do limbo social e se tornou amigo dos escritores jovens (e brancos, naturalmente) que gravitavam em torno de Murilo Rubião, no Suplemento Literário de Minas Gerais, ainda na década de 1960. VIAGENS   A democratização crescente do país e a elevação da renda, principalmente nas classes mais pobres, permitiu que viagens de lazer e estudos se tornassem muito mais frequentes do que naquela época. Um programa como o “Ciência Sem Fronteiras”, criado no governo Dilma, tem permitido que milhares de estudantes brasileiros sem recursos cruzem o mundo em busca de conhecimentos até então reservados a poucos. O jovem Adão não teve essas regalias. Viajar para o exterior era privilégio de ricos e da classe média alta. Enquanto seus colegas abonados da faculdade de direito desfrutavam mordomias em Paris, seu lugar era aqui, e já estava mais do que bom. VOA O CORVO   Persistência não faltava ao jovem Adão. A vantagem de ser artista ou atleta em qualquer lugar é a relativização da discriminação racial. Nas profissões de ponta (medicina e engenharia principalmente) a segregação tem origem nos requisitos prévios para ingressar na faculdade: pais capazes de bancar horários integrais.  Filho de Sebastiana de José do Teodoro da Fazenda, tudo o que Adão podia fazer era teimar e insistir. E tanto insistiu que, mesmo desconhecendo inglês, conseguiu ser escolhido para lecionar literatura brasileira nos Estados Unidos. No mês anterior à viagem, passava os dias com um exemplar do “Grande Sertão” debaixo do braço. Eu brincava dizendo – acho que já contei isso – que ele lia por osmose. E lá se foi o poeta, tropeçando no espanhol, que também não dominava. NEGRO, ENFIM Já não se enforcavam negros em árvores nos EUA e os movimentos civis iam de vento em popa, reivindicando e crescendo. No Brasil, o racismo continuava o mesmo: enrustido, dissimulado e escorregadio, como até hoje. Mas foi assim que Adão se compreendeu negro, na profunda solidão vivida lá fora. Pela primeira vez, já com dois livros surrealistas publicados, entendeu que não era branco. Foi então que nasceu “A Cor da Pele”, seu grande-pequeno livro confessional. Enquanto viveu aqui, Adão era negro e não sabia.

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