Tradição cubana, suingue mineiro

BH comemora abertura da primeira escola do Brasil especializada em latinjazz e forma novos talentos caribenhos

iG Minas Gerais | LUCAS SIMÕES |

JOAO GODINHO/ O TEMPO
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Há exatos cinco anos, a voz da cantora cubana Teresa Morales, 55, era a única a ecoar a música latina tradicional da ilha de Fidel Castro na capital mineira. Ouvir a salsa genuína ao som de timbales – percussão típica daquele país –, só em festas abastecidas por versões computadorizadas de DJs. “Até uma ideia inovadora unir a vanguarda cubana e o suingue brasileiro”, conta Teresa. É que, ao longo dos anos, uma nova cena rítmica latina emergiu na cidade e hoje movimenta um reduto caribenho em plena expansão na capital.

Além de servir de casa para alguns dos músicos cubanos mais importantes em atividade no Brasil hoje, como Cubanito, Santiago Reyther e, por um tempo, Renné Ferrer, a capital mineira comemora agora cinco anos da festa “La Noche Cubana”, além dos primeiros passos do Núcleo de Educação Cultural (NUC), sede da primeira escola de música cubana especializada em latinjazz do Estado.

Toda a história dessa evolução está ligada às fitas K7 recebidas pelo correio por Rafael Leite. Coordenador do NUC e percussionista há 20 anos, ele é o principal nome da transformação da música cubana na cidade e único a dominar a técnica cubana de tocar timbales em Minas Gerais. “Lá pelos meus 16 anos, uma tia mandava fitas de cantores como José Luiz Cortês e NG La Banda, que popularizaram em Cuba a tima, um dos gêneros mais importantes de lá”, diz.

Com 10 anos de experiências caribenhas, Rafael Leite comanda a festa “La Noche Cubana” desde 2009, mas recentemente em um formato inédito no país e a partir de um ritual: viaja para Cuba uma vez por ano, onde passa até quatro meses na ilha. Daí nascem encontros com ícones latinos, como o grupo Yorubá Andabo, dos mais antigos da música folclórica de Cuba, além do mestre Changuito, 66, conhecido por ser o inventor da técnica de tocar timbales com sinos de mão, e Giovani Hidalgo, porto-riquenho que vive em Cuba e é considerado um dos melhores percussionistas do mundo. “Lá eu aprendi que a música cubana e brasileira são irmãs gêmeas. As melodias e harmonias são iguais, só o jeito de tocar é que muda”, diz.

A partir disso, uma festa que começou embalada apenas por Teresa Morales, acompanhada de baixo, piano, bateria e percussão para interpretar legítimos boleros cubanos, se transformou em uma explosão rítmica. A maior delas é a banda mineira instrumental Brascubazz, criada há dois anos. O grupo é percussor do latinjazz na cidade, interpretando clássicos da música cubana com influências de Jackson do Pandeiro e Bezerra da Silva. “São inovações, mas tudo dentro da tradição cubana. Como tocar uma salsa legítima, mas ter uma pegada jazzística no solo, introduzindo elementos de afoxé, maracatu, chorinho, em um passeio pela música”, diz Rafael Leite, líder da banda.

TALENTOS. Toda essa diversidade produziu talentos que se multiplicam na cidade. Em cinco anos, a banda caribenha mais antiga da capital, Unión Latina, com 7 anos, viu as noites de baile ganhar sangue novo, como Rubén Santillana, ou apenas Cubanito, como é conhecido o vocalista da banda Black Sonora e da Orquestra Cubana.

Aos 35 anos, depois de dividir o palco com Marku Ribas, BNegão, Otto, Aline Calixto e Renegado, Cubanito sente seu trabalho em expansão, principalmente após ter sido o DJ oficial do festival Savassi Cultural durante a Copa do Mundo. “Logo quando mudei para BH, em 2001, meu pai rodou até achar a única festa cubana da cidade. Hoje eu vivo de discotecagem e de cantar a influência latina aqui. Antes, a gente não tinha pessoas se organizando com conhecimento para expandir horizontes. De repente, foi uma espécie de revolução cubana”, analisa.

Figurinha carimbada dos bailes na capital mineira, o compositor cubano René Ferrer, sobrinho do lendário Ibrahim Ferrer, do Buena Vista Social Club, cantava rap cubano com o grupo Agosto Negro, antes de se casar com a cineasta brasileira Carolina Sá, e se mudar para o Rio de Janeiro em 2003. “No eixo Rio e São Paulo, temos músicos cubanos. Mas não existe uma cena em formação. Passei uma temporada em BH, toquei com Santiago Reyther, um dos caras que me fez investir na mistura de rumba, reggae, mambo e hip hop que eu faço hoje”, diz René.

Para o ícone da vanguarda cubana, Santiago Reyther, 63, não existe outra capital no país que produza música cubana de forma tão original. Formado pelo Instituto de Arte de Cuba, com 54 anos de experiência em percussão, recentemente o músico deu aulas para o sambista Túlio Araújo e o cantor Cristiano Cunha, da nova geração brasileira. “Trabalhei em Goiás, Goiânia, Curitiba, Salvador, Rio. Estou em BH há 15 anos porque tem uma geração de artistas jovens muito talentosos e com conhecimento sobre a cultura cubana, querendo aprender mais. Em São Paulo, Brasília e Recife, que têm noite cubana, não existe nada genuíno assim”, pontua Reyther.

La Noche Cubana

Festa. No dia 6 de setembro, às 20h, o CentoeQuatro recebe a festa La Noche Cubana, reunindo Teresa Morales, Unión Latina, Tempero Son Cubano, Brascubazz e Orquestra Cubana para show comemorativo de cinco anos. Os ingressos variam entre R$ 40 e R$ 20.

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