Nada é verdade em Paulínia

Flerte indiscernível entre documentário e ficção, presente, por exemplo, em “Castanha”, é tendência do festival

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira Enviado especial |

Ator. 
Em “Castanha”, o diretor Davi Pretto acompanha o dia a dia de um ator e transformista gaúcho
Pedro Cupertino
Ator. Em “Castanha”, o diretor Davi Pretto acompanha o dia a dia de um ator e transformista gaúcho

Paulínia, SP. Selecionado para a seção Fórum do último Festival de Berlim, o gaúcho “Castanha” foi o segundo filme em competição exibido na noite de quinta-feira no Paulínia Film Festival. Premiado nos festivais de cinema independente de Buenos Aires e Las Palmas, o longa de estreia do diretor Davi Pretto acompanha João Castanha, gaúcho de 52 anos que vive com a mãe, é ator de dia e transformista à noite. 

Com uma direção segura e uma montagem que abusa dos closes e planos fechados da fotografia para criar relações de sentido e desafiar o espectador a descobrir o que é real e o que é encenado, “Castanha” é um exemplar recente do flerte cada vez mais indiscernível do documentário com a ficção – a exemplo dos premiados “Um Episódio na Vida de um Catador de Ferro Velho”, do bósnio Danis Tanovic, e o fantástico “O Ato de Matar”, do inglês Joshua Oppenheimer, que já haviam borrado essas linhas.

Assim como “Aprendi a Jogar com Você”, documentário de Murilo Salles que também participou da competitiva na última quarta, a produção de Pretto segue personagens reais, mas não nega que certas situações foram encenadas para a câmera – e o público nunca sabe onde começa um e termina o outro. Em “Aprendi”, Salles faz um exercício do chamado cinema-verdade dos anos 1970, seguindo o dia a dia da família do brasiliense DJ Duda, aspirante a empresário musical cujo ethos “fake it ‘til you make it” – ou finja até se tornar realidade – é a cara do Brasil.

Na coletiva do filme, Duda confessou que, no início do processo, acreditava que faria dinheiro com o longa. Quando percebeu que esse não seria o caso, em vez de desistir do projeto, ele decidiu ajudar os realizadores. “Passei a criar situações que nem sempre eram necessárias, mas que eu achava que seriam cenas interessantes para o filme”, escancarou. A sinceridade fez Salles quase se derreter na cadeira ao lado. “Ele criou, mas fui eu que enxerguei na montagem uma história para o filme”, defendeu-se o diretor.

Já Pretto assume de cara a simbiose de “Castanha”. “A gente manda para festivais de documentário e eles aceitam, e para festivais de ficção, e eles também aceitam”, afirmou antes da sessão do longa.

O cineasta gaúcho deixa a responsabilidade da “verdade” para seus personagens, Castanha e a mãe, e cria com sua direção sequências que lembram Apichatpong Weerasethakul – como os comoventes monólogos da mãe e os sonhos do protagonista. Com isso, a belíssima e emocionante performance de Castanha deveria ser seriamente considerada para o prêmio de melhor ator do festival. Em um jogo em que tudo e nada é verdade, a única certeza é que a encenação da forma como o protagonista encara sua própria vida, definitivamente, é arte.

O repórter viajou a convite do festival

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