Treino explica apenas 25% do sucesso em alguma atividade

Pesquisadores ainda entram em conflito diante de inúmeros estudos

iG Minas Gerais | Benedict Carey |

Artes. Estudo usa uma definição de treino que envolve uma variedade de atividades relacionadas, tais como tocar música e outras artes
Beatrice de Gea/The New York Times
Artes. Estudo usa uma definição de treino que envolve uma variedade de atividades relacionadas, tais como tocar música e outras artes

Nova York, EUA. O menino de 8 anos brincando com uma bola de futebol e a mulher de 48 anos correndo, com lições de japonês soando nos fones de ouvido, têm uma coisa fundamental em comum: em algum nível, ambos se questionam se o investimento de tempo e dedicação vale a pena. O quão bom posso ser? Quanto tempo vai demorar? É possível que eu tenha dom para isso? Qual é a porcentagem nisso?  

Há muito tempo os cientistas discutem sobre as contribuições relativas à prática e ao talento natural para o desenvolvimento do desempenho de elite. Esse debate avança para um lado e para o outro a cada século, mas um estudo publicado no periódico “Psychological Science” ilustra em que pé se encontra o debate e dá dicas de que caminho a pesquisa vai seguir.

O debate sobre o valor da prática chegou a um impasse. Em estudo histórico com músicos em 1993, a equipe de pesquisa chefiada por K. Anders Ericsson, psicólogo na Universidade Estadual da Flórida, constatou que o tempo dedicado ao treino explicava quase toda a diferença (perto de 80%) entre os musicistas de elite e os amadores dedicados. A descoberta ecoou rapidamente pela cultura popular, talvez de forma mais visível como a inspiração aparente para a “regra das 10 mil horas” no best-seller “Fora de Série”, de Malcolm Gladwell – média aproximada da quantidade de tempo exigido para o desempenho de um especialista.

O novo trabalho tira outra conclusão. Compilando resultados de 88 estudos sobre uma ampla gama de habilidades, a pesquisa estima que o tempo dedicado ao treino explique de 20% a 25% da diferença no desempenho em música, esportes e jogos como xadrez. No mundo acadêmico, o número é bem mais baixo – 4% – em parte porque é mais complicado avaliar o efeito de conhecimento anterior, asseguram os autores.

“Descobrimos que, sim, a prática é importante e, é claro, absolutamente necessária para se conquistar a perícia. Porém, ela não é tão importante quanto muitas pessoas vêm afirmando”, na comparação com quem tem o dom de nascença, afirma Zach Hambrick, psicólogo da Universidade Estadual do Michigan e coautor do estudo, com Brooke Macnamara, agora na Universidade Case Western Reserve, e Frederick Oswald, da Universidade Rice.

Ericsson, por sua vez, destaca que o estudo usa uma definição de treino que envolve uma variedade de atividades relacionadas, tais como tocar música ou praticar esportes por diversão ou em conjunto. Já seus próprios estudos se concentraram no que chama de “prática deliberada”: aulas individuais nas quais um professor pressiona continuamente um estudante, oferece críticas e avaliações de imediato e se concentra em pontos fracos. “Se você misturar todas essas práticas numa grande sopa, é claro que vai reduzir o efeito da prática deliberada”, afirmou.

Hambrick declarou que utilizar a definição de prática de Ericsson não mudaria muito os resultados, se que é teria algum efeito, e partidários dos dois lados da questão defenderam suas posições. Como se dá com a maioria das áreas do debate entre o dom e o treino, esse também produziu vários campos, cujas estimativas dos efeitos do treinamento variam em até 50 pontos porcentuais.

“Estamos falando de coisas diferentes”, disse Scott Barry Kaufman, psicólogo da Universidade da Pensilvânia e diretor científico do Imagination Institute. E como o desempenho de elite demora anos para ser conquistado, a contribuição exata do treinamento talvez nunca seja descoberta com precisão.

Capacidades

Idade. A idade com que a pessoa pega um violino ou um idioma é um fator importante. Pode existir um período crítico de aprendizagem na infância que prepare o cérebro para, posteriormente, aprender habilidades com velocidade.

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