Acaso pune e também salva

Paulo Antônio da Silva, 68, fala sobre os mais de cinco anos que ficou preso, condenado por estupro

iG Minas Gerais | Marina Schettini |

Cidades - Belo Horizonte - MG
Paulo Antonio da Silva ficou preso por cinco anos injustamente . Ele foi condenado no lugar de Pedro Meyer o chamado maniaco do Anchieta . 

Na foto: Paulo Antonio da Silva

FOTO: FERNANDA CARVALHO / O TEMPO - 25.07.2014
FERNANDA CARVALHO / O TEMPO
Cidades - Belo Horizonte - MG Paulo Antonio da Silva ficou preso por cinco anos injustamente . Ele foi condenado no lugar de Pedro Meyer o chamado maniaco do Anchieta . Na foto: Paulo Antonio da Silva FOTO: FERNANDA CARVALHO / O TEMPO - 25.07.2014

Em casa, a única companhia de Paulo é o som que vem do rádio. De lá, ecoam frases religiosas que são um alento para o homem que passa o dia sozinho, enquanto os filhos cumprem suas obrigações diárias. Na sala de estar, o principal cômodo da pequena casa, estão também quadros que reproduzem cenas católicas e uma Bíblia, guardada sobre um dos poucos móveis do local.

O cenário dá uma prévia do que fez o ex-porteiro manter a esperança durante todos os anos de acusações injustas: a fé. Paulo Antônio da Silva recebeu a reportagem de O TEMPO em sua casa, nesta sexta, para uma conversa. Em pouco mais de uma hora, falou das dificuldades vividas na prisão e do alívio ao ser inocentado, 15 anos depois, por um golpe de sorte, quando uma das vítimas reconheceu, na rua, o verdadeiro criminoso.

Aos 68 anos, com o andar difícil, os olhos cansados e a saúde castigada por cinco anos e sete meses de prisão injusta, Paulo demonstra boa memória com nomes. Ele se lembra bem das pessoas que o ajudaram, como a “dona Célia, síndica do prédio em que eu trabalhava como porteiro, e os doutores Robson, advogado, e Nelci, delegada”, que o acompanharam no início do processo. Mas ele também guarda rancor pelos parentes que não o teriam ajudado, em especial um irmão, “o sargento da Polícia Militar”, e um advogado dos tempos do julgamento.

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Anos perdidos

Paulo também é bom com datas, pelo menos aquelas que marcaram a luta para provar sua inocência, inclusive um 1º de abril, em 1997, ironicamente dia da mentira, quando ele foi levado pela primeira vez à delegacia para prestar depoimento sobre os crimes que lhe roubariam anos de trabalho e de convivência familiar.

Anos que o privaram de ver o crescimento das filhas, que o afastaram da mulher e o impediram de dar um tão lamentado adeus à mãe, que morreu enquanto ele ainda estava preso.

Hoje, Paulo comemora os 25 anos da filha do meio, Ana Paula. Ele também é pai de Adelson, 39, e Natália, a caçula, de 22 anos. Com tristeza, se lembra do quarto filho, que morreu aos 14 anos em um acidente. Mas não dá muitos detalhes, afinal, é “coisa ruim de falar”, justifica.

O único vício adquirido ao longo da vida foi o cigarro, apesar de os médicos já terem avisado que faz mal à saúde. O ex-porteiro nunca bebeu. Antes de ser confundido com um estuprador, também não teve qualquer problema com a Justiça, nunca havia sido preso.

Para o futuro, ele pensa em usar os R$ 2 milhões que deve receber de indenização para comprar um imóvel e incrementar a renda da aposentadoria. “Por causa desse dinheiro, meus filhos não querem mais que eu fique aqui, sozinho. Mas eu não tenho medo. É como aquela música que fala que o ladrão foi lá em casa e quase morreu do coração. Não tem uma música assim?”, pergunta, referindo-se a “Pega Eu”, de Bezerra da Silva. Parece que ainda não se deu conta do montante que poderá receber.

Outro desejo é arrumar uma companheira. Para isso, ele já ensaia investir no visual e adianta que a filha Ana Paula sugere a retirada do chapéu para ficar mais bonito. Mas enquanto a amada não chega, ele aproveita os dias de liberdade passeando pelas ruas do bairro (que não será divulgado para preservá-lo) e cuidando de suas galinhas, tentando, quem sabe, compensar o tempo perdido.

Entenda o caso

Prisão. Paulo ficou cinco anos e sete meses preso em regime fechado, até ter o benefício da prisão domiciliar, em 2002.

Ação. A investigação voltou à tona em março de 2012 após uma mulher que havia sido estuprada quando criança reconhecer o suspeito ao andar pelo bairro Anchieta, na região Centro-Sul da capital. Ela chamou a polícia, que prendeu o ex-bancário Pedro Meyer, o Maníaco do Anchieta. Ele confessou. Paulo foi então inocentado.

Indenização. Nesta semana, a Justiça decidiu que o Estado deve indenizar o ex-porteiro em R$ 2 milhões. Cabe recurso.

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