Seis décadas de fina sintonia

Pela primeira vez dividindo o mesmo palco na capital, Ângela Maria e Cauby Peixoto trazem o show “Reencontro”

iG Minas Gerais | Lucas Simões |

Vozes poderosas. Os dois interpretam clássicos de bolero e samba-canção
TheatroNetRio
Vozes poderosas. Os dois interpretam clássicos de bolero e samba-canção

O que parece um reencontro aos olhos da história da MPB pode ser encarado como algo nunca antes visto. E é, pelo menos na capital mineira, onde Cauby Peixoto e Ângela Maria se apresentam pela primeira vez juntos, neste sábado à noite, em show no Teatro Bradesco.  

A apresentação marca 60 anos de um relacionamento íntimo e fraternal, rejuvenescido por interpretações de grandes boleros e samba-canções que recheiam o disco “Reencontro” (Nova Estação/Eldorado), terceiro álbum da carreira da dupla, lançado em dezembro do ano passado. “Em algumas cidades, nunca estivemos juntos, apesar de seis décadas de parceria. Isso transforma o show num primeiro encontro eterno”, confirma Ângela.

Apesar disso, o primeiro encontro de data histórica ainda dança nas lembrança dos dois cantores como nenhum outro dia da carreira. Em 1962, quando Ângela Maria interpretava “Samba de Prelúdio” como convidada da boate Drink, no Rio de Janeiro, Cauby Peixoto subiu ao palco de súbito, enfeitiçado pela voz da diva. “Depois que a vi cantando na minha boate e subindo aqueles tons todos com tanta facilidade, também subi ao palco com toda a energia –quase cai, na verdade. Lembro que, apesar de olhar para Ângela o tempo todo, não precisamos de qualquer acordo para cantar. Foi sintonia pura”, diz.

É verdade que Ângela, 85, e Cauby, 83, não conservam mais todo o viço daqueles vozeirões inoxidáveis dos anos 60 e 70. De um lado, a cantora confessa que precisa tomar cuidados com os timbres vocais, mas a compensação vem com uma empatia singular com a plateia. “Hoje em dia eu me seguro em alguns tons por precaução, a voz pode picotar sim, mas nada demais. Porque eu falo com a plateia, brinco, conto história e crio o clima”, diz a Sapoti.

Do outro lado, o Professor da MPB – apelido que o meio artístico deu a Cauby – se apresenta em boa parte do tempo sentado, sem abrir mão de trajar um terno brilhante e consultar um caderno com as letras de algumas músicas. “É claro que o tempo daria esses sinais a nós. É algo normal da memória. O importante é que continuamos a cantar a alma das pessoas, que fazem questão de nos ver até hoje pelo ineditismo. Porque inacreditavelmente juntos somos inéditos em BH”, diz Cauby.

Com o lema inabalável de que “música boa não morre”, a Sapoti e o Professor fazem parte do recluso núcleo da MPB que não foi fisgado pela geração contemporânea da música brasileira. Por isso, os 60 anos de carreira que eles interpretam no palco são dedicados principalmente a nomes como Ary Barroso, Dorival Caymmi, Vinicius de Moraes, Vicente Paiva e o compositor luso-brasileiro Adelino Moreira – este último, preferido de Ângela Maria e regravado por Nelson Gonçalves nos anos 50. “A música está fraca em termos de romantismo, que é a nossa raiz. Faltam talentos explosivos, espaço, muita coisa. Por isso, o ‘Reencontro’ homenageia principalmente os letristas que já construíram um legado”, diz a cantora.

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