A história do meu livro

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Numa noite qualquer, em outubro de 2004, eu me sentei na frente do computador e pensei: “Vou escrever um livro”. Essa cena já tinha se repetido algumas vezes, tenho vários livros guardados que comecei e aposentei ainda nos primeiros capítulos, mas daquela vez foi diferente. Quando comecei a escrever, eu não tinha a menor ideia do que viria a ser aquela história. Eu tinha um daqueles livrinhos de “significados dos nomes” e abri numa página qualquer. Bati o olho em “Fani”. Significado: “Diminutivo de Estefânia”. Gostei. Minha personagem principal já ia nascer com nome e apelido. E foi assim que eu comecei “Fazendo Meu Filme”, a história de uma menina de 16 anos, que, em pleno fim de semana, estava em casa, por vontade própria. Uma menina que não tem nada a ver com a adolescente que eu fui... Eu saía todos os fins de semana, tinha milhões de amigos e não perdia uma festa. Acho que isso já responde à pergunta que sempre me fazem, se o meu livro é autobiográfico. Não, não é. A história da Fani é a história que eu gostaria de ter vivido... Eu escrevi os dois primeiros capítulos, mostrei pra minha mãe e uma amiga; as duas gostaram muito. Escrevi mais uns três, mostrei pra minha prima; ela também adorou... Mas então aconteceu um fato em minha vida que me fez parar a escrita por um tempo. Eu me mudei pra Londres, no começo de 2005, e durante esse período tive a chance de fazer um curso de escrita criativa. E foi exatamente nele que a vontade de continuar meu livro, já estacionado havia uns cinco meses, aflorou. Eu o resgatei no meu computador, reli tudo o que já tinha escrito, modifiquei umas partes (já influenciada pelo aprendizado do curso) e continuei a história. Gravei uma trilha sonora especialmente para escrever, com músicas que me faziam entrar no clima do livro, e, toda noite, punha meu fone de ouvido e escrevia até de madrugada. Nos fins de semana, eu colocava o computador na mochila e ia para os parques londrinos, me sentava embaixo de alguma árvore, e aí é que a inspiração vinha mesmo. Uma pena não podermos nos sentar nos parques do Brasil pra escrever. No mínimo, nos roubam o laptop e a história. Meu livro, aos poucos, foi virando realmente um livro, em vez de capítulos. Passei a mandar por e-mail trechos para minha prima, minha mãe e minha amiga (as mesmas que vinham lendo desde o comecinho), e elas ficavam muito ansiosas pelos próximos, o que me fez ver que estava no caminho certo. Não me esqueço do dia em que terminei de escrever. Outubro de 2005. Quando escrevi FIM, caí no choro. Mandei um e-mail na mesma hora pra minha mãe: “Buááá, minha amiguinha foi embora...”. E foi mesmo essa sensação que tive, como se alguém que estivesse me fazendo companhia durante todos aqueles meses tivesse viajado e me largado ali, sozinha... Mas, na verdade, a Fani desembarcou no Brasil junto comigo.

Mal cheguei aqui, comecei a procurar editoras para mostrar a minha história. Foi a primeira vez em que eu tive a noção de como é difícil publicar um livro no Brasil. O que mais me impressionou foi que as pessoas não queriam ler nem o começo, nem sequer uma página. Simplesmente presumiam que eu não tinha competência pra escrever um livro bom, que desse lucro, e me dispensavam. Por sorte, depois de passar por duas editoras, resolveram me dar uma chance na terceira delas: ficaram com o meu livro para dar uma analisada no material. E eu nem pude acreditar quando, poucos dias depois, me ligaram dizendo que tinham gostado e que iam publicar! Mas ainda não foi aí que eu comecei a comemorar, tinha um “porém”. A agenda de publicações daquele ano (2006) estava lotada. Só poderiam lançá-lo em 2007. Tudo bem, eu já tinha esperado tanto... Assinei o contrato. Quando 2007 chegou, mudaram a data pra 2008. Minha ansiedade, que já é grande, ficava ainda maior pelas perguntas vindas da família e dos amigos o tempo todo: “E o livro?”, “Você não ia lançar um livro?”, “Seu livro não vai sair mais?”. O tempo finalmente passou, 2008 chegou, e o meu livro entrou em produção. Revisão, editoração, a primeira reunião... E a partir daí tudo foi muito rápido. Não me esqueço de quando me chamaram pra escolher a capa nem do dia em que tudo ficou pronto... Era o livro mais lindo que eu já tinha visto na vida. Não tinha a menor possibilidade de ver um livro daqueles na livraria e não sair de lá com ele. E o melhor de tudo é que ele era meu! O lançamento foi uma festa, mas eu não vi quase nada. Só autografei, autografei, autografei. No dia seguinte, me deu a maior tristeza. O acontecimento pelo qual eu tinha esperado três longos anos tinha chegado e passado... Porém, logo fiquei feliz de novo, pois comecei a receber muitos elogios por e-mail, e eles continuam a chegar. Todos os que leem realmente parecem gostar, muitos dizem que choraram no final, e acho que não tem alegria maior pro escritor do que essa de causar identificação e emocionar o leitor. Eu disse que a vida da Fani é a que eu gostaria de ter vivido, mas, pensando agora, depois de recordar toda a saga do meu livro, penso que me enganei. Não troco essa história da minha vida por história de livro nenhum. Afinal, o melhor de tudo é poder escrever várias histórias na vida da gente. E “hoje eu sei que nenhum filme (ou livro) é melhor do que a própria vida”. E essa última frase não é minha. É da Fani.

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