Festival Paulínia de Cinema

Crime sem culpa nem castigo, evento traz diretor Abel Ferrara e atriz Jacqueline Bisset para apresentar o polêmico “Bem-Vindo a Nova York”

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Festival de Paulínia/Reprodução
undefined

PAULÍNIA, SP. Abel Ferrara não para. Gesticula com as mãos. Rabisca na folha à sua frente. Perde-se em longas divagações que levam ele mesmo ao riso, falando com a mesma velocidade nova-iorquina de seus conterrâneos Woody Allen e Martin Scorsese – só que com uma boca bem mais suja, cheia de ‘fucks’ e provocações.

“Eu achei que você já tinha transado com ele”, o cineasta nova-iorquino diz para uma embaraçada Jacqueline Bisset, explicando por que ele acreditava que a atriz já conhecia Gérard Depardieu antes de os dois se encontrarem no set de “Bem-Vindo a Nova York”. O filme é o motivo da vinda do diretor e da atriz ao 6º Paulínia Film Festival, que neste ano se abriu para programação internacional. Bisset, com os olhos azuis e a elegância de uma diva, negou a suposição.

Mas é essa ousadia, que não teme flertar com a linha do inaceitável, o que provavelmente atrai o cineasta a protagonistas como o policial fora de controle de “Vício Frenético” ou o Mr. Devereaux de “Bem-Vindo a Nova York”.

O filme, que encerra o festival paulista amanhã – e hoje pode ser visto em Belo Horizonte, às 21h30, dentro da Mostra Imovision 25 anos, no Belas Artes –, é baseado no escândalo real envolvendo o francês Dominique Strauss-Kahn, diretor-geral do FMI acusado de abuso sexual por uma camareira no hotel onde se hospedou em Nova York em 2011. O caso fez com que ele perdesse o cargo e desistisse de concorrer ao governo da França.

“Abel disse que o que interessava a ele não era a situação, mas a estrutura de poder imposta por essas pessoas”, recorda Bisset. De fato, Ferrara usa a história para construir o retrato de um viciado em sexo que usa sua posição para alimentar seu vício sem ter que lidar com as consequências, algo que o diretor compara a um vampiro. “Vampiros não aparecem no espelho porque simplesmente não olham para ele: eles sabem o que encontrarão ali e não se importam”, filosofa.

Mesmo quando é pego, Devereaux não demonstra um pingo de culpa ou arrependimento por seus atos. “Esse filme é minha canção do cisne para personagens que vão do ponto A ao ponto A”, o cineasta brinca, referindo-se à ausência de redenção típica de seus protagonistas.

Mas o que realmente incomoda é que essa inexistência de remorso se reflete na câmera do diretor, que observa tudo à distância, sem jamais tomar partido ou julgar o que filma. Isso faz do espectador um voyeur, algo especialmente incômodo no primeiro ato do longa – meia hora de orgias quase ininterruptas, em que Depardieu e outros homens transam abusivamente com várias prostitutas.

O ator francês não faz questão de tornar a situação mais fácil para o público, fazendo de seu Devereaux a mistura de uma criança inconsequente com um animal que, durante todo o filme, emite sons guturais que lembram um porco. “Na primeira vez que nos encontramos, ele me mostrou como seria a cena de estupro com a moça que estava limpando a sala onde estávamos. Essa era a entrega dele ao personagem”, lembra Ferrara.

“Bem-Vindo a Nova York” se baseia nos arquivos judiciais nos momentos públicos, mas reimagina a intimidade de Strauss-Kahn com sua esposa Simone. Recriada pela interpretação de Bisset, a personagem é o dinheiro e a mente política por trás de Devereaux, uma espécie de Lady Macbeth com um coração. “Eu acredito que ela ama o marido, mas quando o filme começa, ela está na linha entre o aceitar e o não aceitar o que ele é”, a atriz explica, negando a comparação shakespereana.

Essa reimaginação deu a Bisset e Depardieu uma grande liberdade de improvisação no set. Foi um processo novo para a diva inglesa, que aprendeu a atuar com Roman Polanski e François Truffaut, assistindo às próprias cenas em “Armadilha do Destino” e “A Noite Americana”. “Existia um roteiro, mas o Abel nos disse ‘agora, vão lá e deem vida a ele’”, conta a atriz.

Ferrara, por sua vez, afirma que aprendeu sobre atuação com Harvey Keitel, que se recusa a decorar falas do roteiro, encontrando nos ensaios o que elas querem dizer. “Hoje em dia, o que você vê nos filmes de Hollywood são ensaios, porque ninguém tem tempo de ensaiar nada antes”, critica.

Enquanto lança “Bem-Vindo a Nova York” em Paulínia, o diretor já se prepara para apresentar seu próximo longa, “Pasolini”, que foi confirmado anteontem no Festival de Toronto e também deve passar por Veneza antes. No filme, o nova-iorquino abandona seus protagonistas carregados de crimes e (ausência de) castigos em favor de um dia no fim da vida do legendário cineasta italiano, numa estrutura próxima ao seu “4:44 – O Fim do Mundo”. “Como um dependente químico em recuperação, e de criação católica, a culpa sempre esteve em todos os lugares. Mas virei budista e agora ela não está mais em questão para mim”, diz Ferrara.

Leia tudo sobre: Clique para inserir palavras chave