Deborah Secco se reinventa em “Boa Sorte”

Atriz está em Paulínia para promover o filme protagonizado por ela e João Pedro Zappa em festival de cinema no interior de São Paulo

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Atriz diz que nasce “nova artista” com personagemsoropositiva
Paulínia Film Festival/divulgação
Atriz diz que nasce “nova artista” com personagemsoropositiva

Acompanhada de uma entourage de mais de 20 pessoas, Deborah Secco tomou o 6º Paulínia Film Festival de assalto na última quinta-feira. Ao subir ao palco à noite para apresentar o longa “Boa Sorte”, a atriz não perdeu tempo em afirmar que aquele era o trabalho mais importante de sua carreira.

“Passei 2014 à espera de Judite. O que posso dizer é que sou outra pessoa depois dela. E torço para que vocês gostem da nova artista que nasce com ela”, disse, emocionada.

A mensagem não poderia ser mais clara. Com a junkie soropositiva internada em uma clínica psiquiátrica, Secco quer reinventar sua carreira (como fez recentemente Matthew McConaughey, que até ganhou o termo McConaissance). Não por acaso, a personagem tenta ser uma mistura da doença fatal do protagonista de Matthew em “Clube de Compras Dallas” com a energia subversiva do R. P. McMurphy de Jack Nicholson em “Um Estranho no Ninho”.

Pena, porém, que o papel no longa de estreia da diretora Carolina Jabor não tenha nem o impacto emocional do primeiro nem a imprevisibilidade indômita do segundo. Adaptado por Jorge Furtado a partir de seu próprio conto, “Boa Sorte” acompanha João (João Pedro Zappa), adolescente internado pelos pais em uma clínica após se viciar na mistura do tranquilizante Frontal com Fanta.

Lá, ele conhece e se apaixona pela Judite vivida por Secco. Nessa sinopse, já se vislumbra o cerne do problema encontrado pela atriz: por mais que ela tente, mais uma vez Secco está vivendo a musa. “Boa Sorte” segue a receita de bolo da fórmula norte-americana do “coming of age”, e Judite nunca consegue ser mais que o catalisador para o amadurecimento do protagonista. Ela é “a namorada”.

O espectador percebe que existe um lado negro, um bicho dentro da personagem que a levou até ali, mas o longa não permite que ele saia e se mostre na tela. Com isso, a produção nunca chega a ser mais que um simples romance. É quase frustrante ver o filme que “Boa Sorte” queria ser, que ele poderia ser, mas não consegue. E que fique claro que a culpa disso não é de Secco, mas da direção fraca de Carolina Jabor.

Irreal. Além de a diretora não saber conduzir a atriz para além de sua zona de conforto, ela não consegue fazer da clínica psiquiátrica um ambiente real. O lugar parece quase uma colônia de férias, onde os residentes fazem e usam o que querem, fumam, se drogam, transam e saem sem nenhuma vigilância ou repressão.

Sem isso, as várias referências a remédios, drogas e loucuras da história parecem simplesmente cosméticas – desperdiçadas, assim como um estrelado elenco que inclui Cássia Kiss, Felipe Camargo, Enrique Diaz e Fernanda Montenegro.

A ideia de que todos temos vícios – João simplesmente substitui o dele por seu amor por Judite – e de o que define se eles são aceitáveis ou não depende de nossa posição socioeconômica, se perde numa história de amor adolescente e previsível.

O roteiro de Furtado é cheio dos diálogos bem escritos e inteligentes, mas precisava de um diretor capaz de levá-lo até o lugar escuro e sujo onde os demônios de seus personagens realmente habitam. Carolina Jabor não é essa diretora.

Quanto a Secco, que também produz o longa, o mais triste é ver Fernanda Montenegro, em uma cena de cinco minutos no final, fazer o que ela tenta durante o filme inteiro: pegar o público de surpresa. A diferença é que Montenegro não tenta. Ela faz.

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