Turismo e gastronomia em Tiradentes

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Os paulistas, na mesa do lado, referem-se a Tiradentes como o “filé de Minas”. Noves fora a pitada de arrogância que se depreendia do tom de voz, da colocação e do contexto em que foi feita, é preciso dar razão a eles. Em nenhuma outra parte do nosso Estado o turismo parece tão bem estruturado quanto aqui.  Para começo de conversa, restaurantes e hotéis revelam boa taxa de ocupação, mesmo numa terça ou quarta-feira de uma semana qualquer, sem feriado, neste pós-Copa que possivelmente representará redução de frequência em outras praças. Para garantir mesa em pontos como o Tragaluz, o Restaurante do Teatro ou o Atrás da Matriz, por exemplo, quase sempre é preciso reservar. Na caminhada matinal, vejo a logomarca do grupo Tiradentes Mais e paro para conversar com Haroldo, no escritório que parecia ser de algum organismo público. Vejo que se trata de iniciativa de empresários, voltada para a promoção de seus negócios, de uma forma inteligente e rara no interior mineiro, com a divulgação de roteiros ajustados ao tamanho da viagem, mapa com a localização das atrações turísticas e endereços de estabelecimentos patrocinadores. Pouco?  Não, se comparado à expectativa geral em outras cidades de que isso seja tarefa do poder público. Na verdade, deste se esperam empreitadas mais complexas como a despoluição do córrego que atravessa Tiradentes, nas imediações do tradicional Solar da Ponte e da praça principal, o Largo das Forras. Ao jantarmos no restaurante Templário, onde a truta defumada com batata rôsti e arroz estava gostosa, Gigi, olfato apurado, se incomodou com o mau cheiro, ainda maior no inverno. É inaceitável que o problema perdure e se agrave, há mais de 20 anos!  O fedor e a feiúra de um esgoto a céu aberto não combinam com o famoso festival de gastronomia, os magníficos concertos da Matriz de Santo Antônio, a profusão de pousadas glamurosas, restaurantes de primeira e cavalos com fraldas – excelente ideia – puxando charretes, romanticamente. Já passou da hora de uma intervenção decidida, senhores prefeito e vereadores! Ainda lembro, cioso do incorrigível otimismo, da primeira viagem que fiz à cidade, na década de oitenta. Naquela época, já sonhava com um ribeirão limpinho, dando ensejo a novas possibilidades para o turismo... quem sabe uma piscina pública de água corrente, como na inesquecível Molinaseca, do Caminho de Santiago, um concurso de pesca de piabas para crianças, ou simplesmente o direito a um piquenique no gramado beira-rio, como já pude fazer no Loire francês. Aonde comer em Tiradentes? A resposta é fácil, pois aqui são muitos e bons os restaurantes. Em matéria de comida mineira, por exemplo, há dois dos melhores no Estado. Em BH, só o Xapuri pode rivalizar com o Viradas do Largo, que segue campeão, e com o Ora Pro Nobis, que é medalha de prata e fica ao lado do Chafariz, num cantinho especialmente charmoso. Nele, recomendo o ótimo franguinho com o vegetal que dá nome à casa, acompanhado de angu divino. O atendimento é cordialíssimo. O Viradas do Largo, restaurante da Beth, lambe a excelência, das entradas aos pratos principais. Ganha do concorrente em quesitos decisivos como a couve superfininha e o torresmo mais crocante. Cozinha generosa, bem cuidada, sem pesar na mão, mas também sem medo de temperar a comida mineira como se deve. Um cardiologista vetaria o feijão amigo, alegando duas pitadas de sal além? Gigi amou. Até acho que se pode tirar uma pitada, mas se eu tiver de decidir quem leva cartão amarelo... é o cardiologista! E junto com ele a pletora – estou adorando usar a expressão – de restaurantes marcados pela sensaboria supostamente saudável, porque, se ofendem ao paladar, entristecem o espírito e, portanto, fazem mal à saúde. Os primorosos pastéis de angu recheados com queijo, crocantes, sequinhos, massa fina, tempero exato, só não comprometeram o apetite porque o prato principal estava fabuloso. O tutu de feijão tem consistência perfeita, nem mole demais, nem ressecado, untuoso na medida certa, couve macia e amanteigada, arroz correto, costelinha de porco frita como deve ser, em pedaços um pouco maiores, para não sacrificar a suculência, como tantas vezes vejo por aí, em lamentáveis carvõezinhos recheados de osso. A linguiça tem um toque de originalidade inusitado: presença suave, distante e refrescante do hortelã.

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