O adeus do Belô Poético

Última edição do encontro nacional de poetas começa hoje, entre as comemorações de seus 10 anos e a despedida

iG Minas Gerais | Lygia Calil |

Marcos Assumpção. Intérprete e compositor comanda um sarau na despedida do Belô Poético
Vanessa Campos
Marcos Assumpção. Intérprete e compositor comanda um sarau na despedida do Belô Poético

Por 10 anos, um encontro nacional de poesia marcou o nome de Belo Horizonte na defesa deste segmento literário – o Belô Poético. Nesta edição, porém, o evento se despede dos poetas e do público. Não à toa, tem como tema “Abrem-se ciclos e fecham-se ciclos”.

A abertura do evento será realizada hoje, no Teatro da Assembleia Legislativa de Minas Gerais, às 19h, com homenagens aos poetas Severino Iabá e Diovani Mendonça, pela contribuição na democratização da poesia em Minas Gerais.

“Eles são duas figuras que merecem todos os festejos pelo que fizeram e ainda fazem. Já há bastante tempo queria homenageá-los”, diz Rogério Salgado, que ao lado de Virgilene Araújo organizou o evento por uma década.

Iabá, que além de se dedicar às letras também é artista plástico, professor e ativista, é o criador do projeto Manifesto das Flores. “Ele é o responsável por trazer de volta o folclore do Boi Rosado”, diz Salgado.

Já Mendonça foi o idealizador do projeto ecologicamente correto que levou a poesia a sacos de pão na capital mineira, com o projeto “Pão e Poesia”, e outras iniciativas de arte-educação em escolas.

Despedida. Rogério Salgado explica que o fim se deve mesmo ao cansaço de tocar o projeto por tanto tempo, quase sem apoio. “É muita luta, e chegamos a um ponto também em que queremos fazer coisas novas. Quero me sentir livre para pensar em outras coisas. É o fim necessário para que uma nova jornada comece”, diz, no entanto, sem dizer quais são seus planos para o futuro.

A primeira edição do Belô Poético foi realizada em 2004, inspirada no Psiu Poético, o Salão Nacional de Poesia de Montes Claros, criado por Aroldo Pereira. O poeta montes-clarense agora lamenta o fim do evento na capital. “É entristecedor observar um encontro dessa magnitude acabar por falta de apoio É uma lacuna que vai ficar na literatura brasileira”, afirma.

Já o paraibano Ricardo Bezerra, presidente da Academia de Letras e Artes do Nordeste Brasileiro, destacou a importância do evento como um formador de uma rede de escritores de todo o país que vinham a Minas Gerais participar do encontro. Eles esteve na capital em três edições do evento e lamenta não poder comparecer à despedida.

“É significante perceber o congraçamento de tantas tendências culturais que o evento conseguiu reunir nestes anos. É lamentável ser a última edição”, diz.

Como legado, o evento deixa uma geração de poetas em Belo Horizonte forjada durante o Belô Poético, “Os próprios participantes foram os maiores apoiadores nesses anos todos. Eles vinham de todos os lugares pagando do próprio bolso as passagens e a hospedagem para comparecer, por acreditarem no movimento”, elogia Salgado. “Foi uma das maiores alegrias que tive, um grande orgulho – e não no sentido de ser melhor, mas sim da alegria que me proporcionou”, completa o organizador.

Na avaliação de Salgado, o fim do Belô Poético abre espaço para que novas iniciativas possam surgir em outros lugares. “As pessoas têm que caminhar com as próprias pernas, não podem depender de um evento só. Se eu fiz aqui por 10 anos, sem nenhuma condição, provei que é possível realizar. Podem fazer, por exemplo, um Macaé Poético, um Juiz de Fora Poético”, afirma.

Ele diz ainda não sabe se o fim do evento também irá significar a extinção do selo alternativo Belô Poético. “Não pensei nisso, mas provavelmente também vai deixar de existir”, anuncia.

Música e poesia. Um dos destaques da despedida do evento é a volta do músico Marcos Assumpção, que no ano passado também se apresentou no projeto com poemas musicados da portuguesa Florbela Espanca (1894-1930). Amanhã, segundo e último dia do evento, ele conduz um sarau no Status Café (rua Pernambuco, 1.150, Savassi), com composições próprias. “Ele faz um trabalho belíssimo, é um excelente letrista e um grande leitor de poesia”, afirma Salgado, enfatizando que o artista não cobrou cachê pela participação.

Agenda

O quê. 10º Belô Poético

Quando. Abertura hoje, às 19h

Onde. Teatro da Assembleia Legislativa (rua Rodrigues Caldas, 30, Santo Agostinho)

Quanto. Entrada franca

Hoje

19h. Os poetas prestam homenagens aos mineiros Severino Iabá e Diovani Mendonça

19h30. Palestra “Abrem-se ciclos e fecham-se ciclos”, com o engenheiro Paulo Pina

20h. Show com Cristiano Lima e Regis D’Almeida

20h20. Lançamentos dos livros “Luiz Otávio Oliani Entre-textos” e “Empório de Trovas”, de Arlindo Nóbrega

Amanhã

19h30. Sarau Lítero-Musical, com Marcos Assumpção

20h30. Recital com os participantes de “Poetas En\Cena 8”

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