Bar do do bar: Istambul

iG Minas Gerais |

acir galvao
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Estava sentado sozinho ao balcão jogando conversa fora com o Gaspar, que naquele momento, quando o bar ainda não estava muito cheio, podia se dar ao luxo de um dedo de prosa. Mas ele foi atender a um cliente e eu, por pura distração, comecei a prestar atenção na conversa dos três sujeitos que estavam ao lado. Eles falavam sobre os porres homéricos que já tiveram que enfrentar. “Já caí muito, e caí feio, na frente de todo mundo”, disse um. “É normal, que atire a primeira pedra quem nunca tomou um capote de bêbado”, emendou o outro, antes que o terceiro começasse a relatar sua experiência no assunto. “Vocês se lembram do Furdunço, aquela festa que o Roberto fazia lá no Café Balboa? Pois é, teve uma vez, já bem de madrugada, o lugar entupido de gente, eu pra lá de Bagdá, que foi um vexame total e completo. Eu tinha ido com a Ruth, o Benedito e o Marcelo, mas já tinha me perdido deles, tinham ido embora ou sei lá o que, e fiquei dançando sozinho na pista apinhada, ocupando o centímetro quadrado que me cabia, imerso no embalo da música, de olhos fechados. Quando fui ver tinha uma menina dançando bem na minha frente, toda lânguida, com o rosto muito perto do meu e me encarando. Era linda, cabelo loiro curtinho, olhos claros, as bochechas rosadas e um sorriso encantador. Era um pouco gordinha, mas nada que atrapalhasse o conjunto da obra. Não deu outra, simplesmente nos beijamos, sem trocar uma palavra, sem perder tempo, com muita vontade e sofreguidão, aquele beijo louco, sabe? O álcool na cabeça, a música envolvente, as luzes, todo isso contribuindo”, dizia, quando o primeiro dos três sujeitos interrompeu. “Mas o que isso tem a ver com cair de bêbado”, perguntou. “Então, caímos. Ficamos ali tão imersos no beijo, o corpo mole, as pernas bambas, não sei direito como aconteceu, perdi o equilíbrio, ela, que também devia estar tão bêbada quanto eu, também, e nos esborrachamos no chão igual dois sacos de batatas amarrados um no outro, não sem antes, claro, sair trombando em todo mundo, porque, como disse, a pista estava bem cheia. Não nos machucamos com o tombo, mas imagina a vergonha! Eu me levantei rápido, a ajudei a se erguer também e fui todo encabulado para um canto, do lado do DJ. Ela eu não sei, acho que foi para o banheiro ou para algum outro lugar do Balboa”. O outro sujeito da turma fez algum comentário que não entendi direito, disse que tomar tombo em público era realmente pior, um papelão, porque mesmo quando a gente não machuca, fica com aquela cara de pastel. “Eu fiquei lá no meu canto um tempo”, continuou o outro com seu relato. “O pileque tinha até passado um pouco com o vexame, mas aí não demorou muito e a menina apareceu de novo, veio vindo na minha direção. Nesse momento entendi que ela devia estar mais bêbada do que eu, porque veio meio cambaleante, claramente me procurando, mas também nitidamente com dificuldade para discernir qualquer coisa à frente. Mas bem, ela me achou no meu cantinho e já chegou se dependurando no meu pescoço. Achei bom, ela estava afim de mim, eu afim dela, tudo certo. Começamos a nos beijar de novo, aquela quentura, aquela coisa, mas aí não sei o que aconteceu, acho que ela se apoiou demais no meu pescoço, soltou o peso do corpo para que eu sustentasse e eu, troncho que ainda estava, não aguentei”, dizia, aos risos. “Caiu de novo”, se precipitou um dos interlocutores. “Caímos de novo, mas dessa vez foi feio, porque ela caiu de costas, eu de frente, e como a estava envolvendo em meus braços, só tive tempo de, num instante de lucidez, colocar uma das mãos em sua nuca, para que não batesse a cabeça. Acontece que eu mesmo fiquei sem proteção nenhuma. Consegui evitar que ela se machucasse, mas eu fui direto com a testa no chão. De novo consegui me levantar rapidamente, meio atordoado, vendo no rosto das pessoas aquela expressão de incredulidade, de quem diz pra si mesmo ‘que mané’. Daí senti o sangue descendo. O machucado não foi grande, nada grave, mas sangrou bastante, em muito pouco tempo minha camisa já estava toda ensopada. O próprio Roberto foi lá me ajudar, deixou as pick ups por conta de um outro cara lá e foi me levar para o banheiro. Eu estava completamente sem ação, muito envergonhado e ao mesmo tempo preocupado, porque eu só via e sentia o sangue escorrendo, sem ter ainda a dimensão da gravidade da coisa. Da menina eu não tive mais notícia, devem ter levado ela embora, ainda bem, porque se continuasse ali a gente ia acabar parando no hospital, estropiados de tantos tombos. O Roberto arrumou uma camisa sei lá como, me troquei e fui embora, não tinha mais clima nenhum de continuar lá. E não é que, chegando em casa, escorreguei no tapete da sala e caí de novo”, contava. “Pois é, cai-se mesmo nessa vida”, comentou o amigo, antes de pedir outra cerveja e uma cachaça.

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