Um “novo” gosto pelo texto bem falado em cena

iG Minas Gerais | gustavo rocha |


Atores preparam novo espetáculo com direção de Yara de Novaes
ELISA MARIA RODRIGUES DIVULGAÇ
Atores preparam novo espetáculo com direção de Yara de Novaes

Colaborativo por natureza, o grupo Teatro Invertido – que completa dez anos de estrada em 2014, com mostra gratuita de seu repertório – busca, desde sua última montagem (“Os Ancestrais”, de 2012, dirigida e escrita por Grace Passô), rever seus procedimentos criativos e de dramaturgia. Assim, o novo espetáculo, com estreia prevista para novembro, busca um caminho, digamos, “menos invertido” para sua construção.

“Tínhamos o desejo de não começar do zero (como costumamos fazer). Resolvemos ter um texto escrito, da primeira palavra ao ponto final. Quando decidimos isso, percebemos que precisávamos de alguém que – além de ser um bom diretor – tivesse know how em montar textos prontos, fechados. Sabemos que é uma deficiência, ou um lugar que o grupo nunca experimentou junto”, revela Leonardo Lessa, integrante do grupo.

Antes da escolha do texto, no entanto, o grupo passou por um longo processo de pesquisa, que envolveu autores estrangeiros. “A gente começou mesmo esse processo pesquisando alguns textos. Lemos muitas coisas do (Bertolt) Brecht, depois começamos uma pesquisa de textos latino-americanos. Nós entendemos que os latinos tinham esse viés político e poético muito forte, e isso nos interessava. Lemos mais ou menos uns cem textos”, revela Robson Vieira, ator do grupo.

Yara de Novaes, atriz e diretora radicada em São Paulo, foi convidada para dirigir o trabalho. Coube a ela a tarefa de questionar as escolhas do Invertido. “A Yara nos tirou o chão e perguntou por que nós queríamos fazer um texto latino-americano, e se não havia um texto mais próximo da gente. ‘Por que vocês não procuram a turma de vocês para dizer aquilo que vocês querem dizer?’, ela nos questionou”, relembra Vieira. “Era quase como um desafio. Ela nos dizia: ‘Ouço falar que tem coisas de dramaturgia em Belo Horizonte sendo feitas. Cadê?’”, revela Leonardo Lessa.

A puxada de tapete de Yara foi positiva e serviu de estímulo para o coletivo. Depois de pesquisar autores locais, os artistas chegaram a “Noturno”, texto de Sara Pinheiro, dramaturga de Belo Horizonte, que é parceria de Vinícius Souza no projeto Janela de Dramaturgia.

A nova peça narra o encontro de cinco colegas, à beira de uma piscina, para um churrasco. A situação aparentemente banal contrasta com a iminente ameaça do fim do mundo que paira no ambiente. “Essa situação serve como metáfora para se discutir as recentes transformações sociais vividas no Brasil e no mundo, especialmente, no que diz respeito à perda de privilégios de uma elite burguesa, hoje, acuada, reacionária e resistente a se relacionar com uma nova ordem”, analisa Lessa.

As primeiras abordagens da obra trouxeram novidades. “Esse tem sido um processo formativo. De voltar lá nas bases. Agora, por exemplo, nós estamos num momento muito inicial de estudo de texto. Exercícios que a gente nunca tinha feito em dez anos de grupo”, diz Lessa. “E reverbera no ensaio de hoje, por exemplo. A gente percebe quando o texto não está bem falado”, completa Vieira.

Assim, a palavra que, por vezes, é esquecida ou deixada em segundo plano em alguns coletivos que focam seus trabalhos na preparação e expressão corporais, volta à baila, com força. O processo de criação do Invertido comprova isso. “Eu sinto que a gente está se enamorando da palavra de novo, que é uma coisa que está acontecendo na cidade. Como se a palavra tivesse uma sedução. Estamos estudando o texto, a palavra”, finaliza Rita Maia, atriz do grupo.

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