A inversão do olhar no teatro

Grupo Teatro Invertido comemora dez anos com apresentações gratuitas de suas peças mais recentes em sua sede

iG Minas Gerais | gustavo rocha |

“Proibido Retornar” mostra um retirante interiorano perdido em suas memórias e na cidade grande
MARCO AURÉLIO PRATES DIVULGAÇ
“Proibido Retornar” mostra um retirante interiorano perdido em suas memórias e na cidade grande

Costuma-se dizer que nome é destino. Ou seja, ao dar o nome a algo ou alguém é provável que se trace uma linha imaginária até o futuro. Pois, foi assim, há dez anos, que alunos da graduação em teatro, da UFMG, fundaram o Grupo Teatro Invertido, buscando um olhar diferente sobre aquilo que se produzia e se pesquisava dentro do âmbito universitário e teatral. “O nome funciona como um estímulo, um desafio para recriar nossas certezas em cena, inverter a lógica. Estamos sempre nos desafiando”, revela Kelly Crifer, integrante do grupo desde 2007.

Em sua sede, o grupo ensaia e prepara uma seleção de peças do seu repertório, o “aMOSTRA Grátis”, para comemorar a data, a partir de hoje. O primeiro espetáculo a ser apresentado é “Proibido Retornar”, de 2009. Na sequência “Estado de Coma” e, por fim, “Os Ancestrais”. Serão três semanas de apresentações gratuitas.

Traçando o caminho que lhe deu o nome, o grupo traz em seus cartazes de divulgação os dizeres “Por um Olhar Inverso”. Mas o que seria, exatamente, esse olhar invertido, inverso para o teatro? “Inversão no sentido da prática. Deslocar no lugar do teatro. O teatro pode ser feito na rua, na casa de baile, em um laboratório na rua. A gente fala para o público, ‘vamos sair desse lugar passivo, do conforto’”, provoca Rita Maia, atriz e fundadora do grupo.

“Hoje, pensando nos dez anos, existe também uma inversão, ou a tentativa em nossa prática coletiva, que a gente questiona muito. A gente, pela opção que fez por um teatro de grupo, já está imbuído por essa inversão no olhar. Dentro dessas quatro paredes, a nossa lógica é muito diferente da lógica lá de fora. É uma lógica horizontal, enquanto lá (fora) se briga para que ela seja vertical. Nosso desejo é contaminar a cidade, através de nossos espetáculos, inverter essa forma do cidadão se relacionar com ela”, define Leonardo Lessa, um dos fundadores do grupo

HISTÓRICO. O Invertido nasceu dentro da UFMG, com o nome de Grupa (Grupo de Pesquisa Prática em Atuação), sob a orientação da professora Bya Braga. “Ela queria fazer um grupo nos moldes do Lume, de Campinas”, lembra Rita Maia. Em 2003, a trupe fez seu primeiro espetáculo, “Nossa Pequena Mahagony”, ainda com o nome de Grupa. “A montagem foi um divisor de águas, porque nos mostrou, talvez, que era possível unir pesquisa em teatro a médio prazo, criação, produção, circulação e gestão”, destaca Lessa.

Depois disso, o processo de rompimento com a universidade, para alçar novos voos, foi natural. Ainda assim, alguns preceitos se mantiverem ao longo da trajetória do Invertido. “A pesquisa se mantém até hoje. Os nossos processos partem de uma intensa investigação. E desde o ‘Mahagony’ nós temos contato com duas outras premissas: a colaboração como princípio de trabalho – nós tivemos contato com o processo colaborativo, uma novidade da época, mas o que fica para gente é a colaboração como um princípio e não uma metodologia – e as temáticas sociais e políticas como um ponto de partida para se chegar no que a gente quer dizer como grupo”, destaca Lessa.

SEDE. Em meio a uma de suas crises, o Invertido percebeu a necessidade de ter um abrigo. A loja de esquina no bairro Sagrada Família, então, se transformou no endereço do grupo, que divide o espaço com o Teatro Mayombe e ganhou o nome de Esquyna, Espaço Coletivo Teatral. “Até hoje eu gozo com essa possibilidade de ter esse espaço”, revela Kelly Crifer, integrante do Invertido. “Ter nossa própria sede intensificou o nosso trabalho. Ter uma casa intensifica essa relação com a criação, que é um luxo”, completa Kelly.

O Esquyna foi não só importante para abrigar o grupo, seus materiais cênicos e seus ensaios, ele começou a criar um caminho de duas mãos entre as temáticas dos espetáculos e o entorno que cerca a sede. “Fizemos uma opção, muito intuitivamente, e ela nos trouxe essa dimensão de que existíamos fisicamente na cidade e acho que isso só estreitou ainda mais nosso laços e nossa necessidade de comunicação mais direta com o espectador. Desde que a gente entrou aqui, nossos espetáculos são criados nesse espaço para serem apresentados aqui”, revela Lessa.

“Eu chamo esse lugar de ‘casinha’, porque eu considero a extensão de minha casa. Como se fosse um lugar que dissesse ‘isso aqui também sou eu. É a minha identidade’. Tem uma coisa caseira aqui que serve para reforçar nossa identidade”, afirma Maia.

A mostra

Fique por dentro da programação de 10 anos do Grupo Teatro Invertido

De 25 a 27 de Julho

“Proibido Retornar”

De 01 a 03 de Agosto

“Estado de Coma”

08 a 10 de Agosto

“Os Ancestrais”

Sexta e Sábados às 21h; Domingo às 20h.

Onde. Esquyna - Espaço Coletivo Teatral (rua Célia de Souza, 571, Sagrada Família)

Quanto. Entrada franca

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