Prefeitura autoriza demolição

Município afirma que alça que ficou de pé deve ser destruída em nome da segurança de moradores

iG Minas Gerais | Joana Suarez |

GUSTAVO BAXTER / O TEMPO
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Com base no laudo apresentado na última terça-feira pela construtora Cowan, a Prefeitura de Belo Horizonte deu o aval para a demolição da alça que restou do viaduto Batalha dos Guararapes, na avenida Pedro I, em Venda Nova, em caráter de urgência. Porém, especialistas acreditam que a medida é precipitada por ser tomada a partir do parecer técnico de uma parte interessada no processo e por haver risco de perda de provas que podem contribuir para esclarecer o que levou à queda da outra alça, há 22 dias, matando duas pessoas e deixando 23 feridas. A decisão do Executivo foi tomada nesta quinta após audiência com o Ministério Público de Minas (MPMG) e a construtora. Apesar de ter contratado uma perícia para apurar as causas do acidente, paralelamente aos trabalhos da Polícia Civil (PC), o município informou que não vai aguardar os resultados diante do risco iminente de queda da estrutura, apontado no parecer da Cowan. O documento concluiu que houve erro de cálculo no projeto executivo, que dimensionou menos aço do que o necessário no bloco que fica a abaixo de um dos pilares do viaduto. A falta de armadura é o que teria feito a estrutura ruir. “A prefeitura demonstrou, na audiência, a necessidade de demolição da referida alça viária, para se evitar qualquer risco para os moradores, motoristas e pedestres”, disse o Executivo, por meio de nota, ressaltando ainda a adoção da medida em caráter de urgência. A construtora Cowan aceitou arcar com as despesas de hospedagem provisória das famílias dos prédios vizinhos ao elevado e com os custos de contratação de projeto e obras da demolição da alça que restou. O método utilizado deve ser o de implosão. Posteriormente, se ficar comprovado que ela não é a culpada pelo desabamento, a empresa poderá ser ressarcida. Provas. Para o vice-chefe do departamento de engenharia civil da Universidade Estadual Paulista (Unesp), José Bento Ferreira, especialista em recuperações estruturais, a demolição não pode ocorrer antes do laudo da perícia. “O correto é realizar uma auditoria independente. Não se pode tomar providências baseadas em laudos de partes do processo. Isso pode, inclusive, destruir alguma prova que serviria para verificar se a obra foi executada como projetada”, destacou. Segundo Ferreira, ainda pode ser feita uma prova de carga da estrutura, aplicando um peso em cima dela para comprovar a deformação. “O bloco pode ser refeito ou reforçado”, considerou. A opinião é compartilhada por Cristiana Furlan Caporrino, mestre em engenharia de estruturas pela Universidade de São Paulo (USP). “Ainda que a alegação da construtora pareça pertinente, a demolição deve ser esperar o laudo oficial”. A Consol, responsável pelo projeto, enviou uma nota para a prefeitura, nesta quinta, contestando o laudo da construtora e alertando que a destruição não deve ser feita neste momento. O laudo da perícia da Polícia Civil (PC) só deve ser concluído em pelo menos mais 30 dias. Conforme o diretor do Instituto de Criminalística, Marco Paiva, o relatório está sendo elaborado com base em estudos mais amplos que o parecer da construtora Cowan e demais problemas como na sondagem do solo ainda não foram descartados. “Precisamos saber como cada falha teria contribuído para o sinistro. É mais prudente esperar a nossa conclusão. A Cowan está vendo o lado dela. Não podemos ser precipitados”, afirmou Paiva.

Investigação Depoimentos. O Delegado Hugo e Silva, responsável pelo inquérito, já ouviu 50 pessoas entre passageiros do ônibus envolvido na tragédia, funcionários da obra, familiares das vítimas e engenheiros da construtora.

Perícia deve demorar pelo menos mais 30 dias Os estudos sobre a estrutura, fundação, solo e a verificação do controle de qualidade da obra foram concluídos pela Polícia Civil, mas a previsão de emissão do laudo final é de cerca de 30 dias a contar da total retirada das estruturas acima e no entorno do pilar do viaduto. Procurada pela reportagem, a Cowan, que realiza o trabalho de demolição da alça que caiu, não informou quando terminará a destruição da parte do viaduto que ficou em cima do pilar, que ainda será periciado. A demolição é feita com o auxílio de um equipamento especializado que corta a estrutura. Hoje, o delegado Hugo e Silva e o diretor do Instituto de Criminalística da Polícia Civil, Marco Paiva, vão prestar mais esclarecimentos sobre o andamento das investigações.

Saiba mais Causas. Quando o viaduto caiu, especialistas em estrutura ouvidos por O TEMPO apontaram várias causas possíveis para o acidente. A maioria deles disse que erro teria ocorrido na sondagem do solo. O foco da investigação é na região dos pilares. Um deles afundou cerca de 6 m. Cálculo. O erro apontado pela Cowan no projeto do viaduto é considerado grosseiro (falta de aço). Segundo o doutor em recuperações estruturais, José Bento Teixeira, essa é uma falha muito improvável, porque é um componente básico, que todo calculista saberia dimensionar. Verificação. Para a mestre em engenharia de estruturas pela USP, Cristiana Caporrino, a construtora poderia ter estranhado o projeto e questionado ou contratado alguém mais para verificar o cálculo, já que tem larga experiência em construção de viadutos. Obras. Nesta quinta, após a reunião com a prefeitura e a Cowan, o promotor Eduardo Nepomuceno lembrou ainda que as obras de mobilidade urbana da capital já vinham sendo investigadas desde 2012. “Já havia outros erros de projeto, como o piso asfáltico na avenida Cristiano Machado”, afirmou o promotor.

Prejuízo O prejuízo ao patrimônio municipal foi calculado em cerca de R$ 10 milhões, conforme Eduardo Nepomuceno. Ele destacou que o município não pode pagar duas vezes pela mesma obra. “O Ministério Público entende que cabia à prefeitura verificar e aprovar o projeto, e a empresa executora verificar o erro apontado. E ela não pode dizer que não é culpada”, disse.

Trânsito A avenida Pedro I, na altura do bairro São João Batista, foi fechada para o tráfego de veículos logo após o acidente, no último dia 3. A BHTrans estabeleceu desvios. A liberação da via iria ocorrer na semana passada, porém foi cancelada após o laudo da Cowan apontar riscos. Diante disso, não há previsão para que o trânsito seja retomado na via. 

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