Um rebuliço necessário

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Todo mundo que me conhece sabe que sou apaixonado por novela. Desde pequeno sou assim. Pra você ter uma ideia, quando era criança, fazia coleção de “Revista da TV”, aquele caderno do jornal “O Globo” sobre televisão (mal sabia eu que iria me transformar em jornalista e editor de uma publicação semanal sobre TV). E, desde sempre, assistia a tudo de bom que passava, de novelas a minisséries. Bem dito: “de bom”, porque ninguém quer ficar vendo coisa ruim por aí, né

Desde “Avenida Brasil”, não sigo uma novela com veemência. Não veio nada depois dela que pudesse me prender, só algumas minisséries e tal. “O Canto da Sereia” e “Amores Roubados” são algumas dessas exceções: me faziam ficar acordado até tarde e, ao chegar no outro dia, no trabalho ou com os amigos, comentar sobre os detalhes do capítulo da noite anterior. George Moura é o responsável por escrever essas pérolas da teledramaturgia contemporânea e, ao lado de Sergio Goldenberg e com direção geral de José Luiz Villamarim, volta para me prender no sofá até tarde com o seu “O Rebu”.

A nova novela das onze da Globo tem três tempos dramáticos: o dia da festa, o dia da investigação e os flashbacks. O remake terá 37 capítulos, em cerca de dois meses (no original de 1974 foram seis meses e 112 capítulos), tudo nesse tempo de 24 horas. E, após uma semana de trama, já deu pra notar a qualidade desse novo produto global, além da identidade de George Moura e do padrão cinematográfico de Villamarim.

E o nível, realmente, é de cinema. As tomadas são cuidadosamente lapidadas, as câmeras estrategicamente colocadas naquele ponto impensável do set, as cenas parecem que passaram por algum filtro do Instagram com imagens perfeitas, belas, acinzentadas. Já na primeira cena, do primeiro capítulo, tem um plano-sequência que começa e termina seguindo a protagonista Angela Mahler (Patrícia Pillar) na festa em sua mansão e que passa por todos os outros atores de destaque da trama, que é de babar. Esses atores, então, estão dando um show de intensidade. Sophie Charlote, Cássia Kis Magro, Tony Ramos, Vera Holtz, Camila Morgado, Dira Paes, Marcos Palmeira, olha que time! Fora os menos conhecidos, como Jesuíta Barbosa, cujo nível esbarra no dos veteranos. Atuações sagazes, sutis, penetrantes.

Por ser uma novela num horário mais tarde, a sensualidade também rola solta. Em alta voltagem: tensão e mistério por trás de um crime da alta sociedade; traição, nudez e volúpia sintetizados em beijos ardentes. E o diretor sabe explorar muito bem isso, vide as minisséries que citei anteriormente. A trilha sonora e o figurino de festa também estão impecáveis. Para acompanhar vestidos e ternos de alto padrão, uma sonoridade que vai de Chico Buarque, Luiz Melodia e Elis Regina a Alabama Shakes, New Order e Amy Winehouse. Tudo casando muito bem com um roteiro estruturado, envolto pela morte enigmática de Bruno (Daniel de Oliveira) e pelo glamour de uma festa de primeira classe recheada de segredos e intrigas.

O fato é que estamos carentes de boas telenovelas. Alguns até tentam inovar, como é o caso de “Meu Pedacinho de Chão” e “Cordel Encantado”, mas o padrão novelesco é sempre o mesmo, e isso cansa. No mundo tecnológico atual, viver de tramas insossas, como as de “Em Família”, “Amor à Vida” e “Salve Jorge”, é quase que rir do nosso poder de escolha, do nosso crescimento evolutivo e televisivo. Na semana passada, perdi um capítulo de “O Rebu” e fui logo à internet me atualizar. Assisti, eufórico, ao capítulo inteiro no site da Globo. Sabe quando faria isso com “Em Família”, por exemplo? Nunca! Que esse grande rebuliço se transforme em boa audiência, e que a nossa programação venha carregada de um “Império” de ousadias. 

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