Quem aposta na recuperação do Brasil?

iG Minas Gerais |

Almocei, em sonho, com o querido amigo Carlos Langoni, ex-presidente do Banco Central. Devo-lhe, além da amizade, inesquecível gesto de distinção, quando titular do nobre cargo da administração federal, mesmo hoje ainda sem a indispensável independência funcional, nos moldes que chegou a ter no governo Castello Branco, logo desmantelado pela inépcia do sucessor. Homenagem inesquecível com que me agraciou foi a exceção de sua presença na minha posse na presidência do então Bemge, no princípio da gestão de Tancredo Neves. Langoni tem comigo muitas afinidades. Uma delas, inútil, é a de perder tempo em pensar e repensar o Brasil, posto que, a esta altura da vida, não tenhamos nem sequer a mais remota ilusão de ocuparmos qualquer cargo público. Pois, mesmo assim, em vez de relembrarmos tempos passados, encantadoras viagens ao exterior que fizemos, escolhemos entreter-nos com a tola conversa de especular sobre a capacidade e a vontade política da nação de mobilizar o Brasil em favor de grandes reformas que o situem na ampla via institucional da moralidade jurídica e da ética pública por onde transitam, sem quaisquer escrúpulos, dirigentes, governantes, agentes políticos em geral do poder que emana do povo, nos termos precisos e ao mesmo tempo enfáticos do preâmbulo e do parágrafo único do Art. 1º da Constituição. Langoni, bem mais do que eu, manteve a sua crença de que o país, assim como a sua história, devagar muitas vezes, sempre no mesmo curso, porém, marcha teimosa e inexoravelmente em busca da promoção do seu povo. Tal busca, a seu ver, acaba vencendo os desvios, as vicissitudes, as desesperanças porque está escrito, desde tempos imemoriais, que o destino da humanidade e do homem só desemboca no estado da felicidade. Jeffersonianamente, insiste em acreditar que Deus fez o homem para ser feliz no meio social em que vive. E só sossega e tranquiliza a alma quando passa a gozar das abundâncias que o Senhor lhe põe à disposição. Invejo-lhe a constância na fé. No mundo de hoje, é raríssimo persistir nela, como o fez até o fim – e o proclamou – o apóstolo Paulo. No Brasil, então, é dificílimo guardá-la. No regime militar, que subverteu tantos valores nacionais com seu autoritarismo pervertido, chegou-se até o famoso “ame-o ou deixe-o”, como se só as armas usurpadoras do poder legítimo fossem as únicas devotas da pátria. Quase tudo o que pregaram não cumpriram ou não conseguiram realizar. Tanto que os demônios, se é que algum dia lograram expulsá-los, por aqui atuam, faceiros e à vontade. Observe-se a corrupção generalizada. Os meios de comunicação são instrumentos confiáveis de denúncias. A vez é dos Tribunais de Contas, erro infeliz que Rui Barbosa cometeu; desmoralizados, viraram viveiros de políticos. As instituições brasileiras, salvo espasmos circunstanciais, mal funcionam. Frágeis e desacreditadas, só garantem o progresso medíocre e precário. É a lição de James Robinson (“Why Nations Fail”), que as elites dirigentes nem lerão.

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