“Faço parte do mundo, mas ele me torna cada vez mais perplexo”

iG Minas Gerais |

DUKE
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O autor da frase que dá título a este artigo é o imortal Charles Spencer Chaplin, um dos maiores gênios da humanidade, que ainda nos proporciona (a todas as gerações, sem exceção) boas gargalhadas, mas, na verdade, apesar das suas diabruras, já nos fez igualmente chorar, pois jamais conseguiu esconder o véu de tristeza que desafia a alegria de viver. Quando revejo algum dos filmes do nosso terno (e eterno) Carlitos, me divirto, mas, ao mesmo tempo, fico triste. A perplexidade diante do mundo no qual vivemos e, em especial, do nosso país, em vez de diminuir, só tem aumentado. Aqui, em nosso torrão, a 310 km de Florianópolis, um homem, durante 12 anos, aprisionou, torturou, estuprou e engravidou duas filhas. Uma das vítimas (a que disse ao repórter: “Para cada lugar que olho nesse mato, há um sofrimento meu...”) espera (do próprio pai) o quarto filho. E a morte do cinegrafista Santiago Andrade, no Rio de Janeiro, que apenas cumpria um dever? E o assassinato do menino Bernardo Boldrini, no Rio Grande do Sul, pelo pai e pela madrasta? E a morte, na porta do hospital (privado) Santo Expedito, na zona Leste de São Paulo, do vigilante Nelson França, que, agonizante, inutilmente gritava por socorro? O avião da Malaysia Airlines, que seguia de Amsterdã para Kuala Lumpur, com 298 pessoas a bordo, e que caiu no leste da Ucrânia, bem próximo da fronteira com a Rússia (a mesma…), foi abatido por moderno míssil. E a questão que se discute é sobre a autoria do ataque. Quem disparou o míssil? A Rússia ou os separatistas? Qual dos dois tem maior potencial bélico? Quanto às vítimas, leitor, você sabe que se f… Trata-se do segundo acidente, neste ano, com a mesma companhia aérea. Em março, um avião que conduzia 239 pessoas a bordo sumiu entre Kuala Lumpur e Pequim. Os dois acidentes me lembram outra frase de Chaplin: “Se matamos uma pessoa, somos assassinos. Se matamos 1 milhão de homens, celebram-nos como heróis”. Em razão das suas frases ferinas, mas todas repletas de realidade, Chaplin foi impedido, durante anos, de entrar nos Estados Unidos. O gênio tinha razão, mas é que nunca aceitamos a verdade. No último dia 17, Israel iniciava (ou, como avisou, dava continuidade) uma invasão, por terra, da Faixa de Gaza, na Palestina, controlada pelo grupo radical Hamas. Desde o dia 8 de julho, mais de 600 palestinos (150 crianças, entre eles) morreram no conflito, mas há mais de 3.500 feridos. Só neste último domingo morreram cem pessoas – 83 palestinos e 17 israelenses. E o banho de sangue continua. Nicholas Kristof, do “The New York Times”, afirma que “os israelenses estão absolutamente corretos em reivindicar o direito de não ser atingidos por foguetes do Hamas, não ser sequestrados ou ser alvos de terrorismo”. Da mesma forma, disse ele, “os palestinos estão absolutamente certos em reivindicar o direito a um Estado, o de abrir um negócio e o de importar mercadorias, o de viver em liberdade em vez de ser relegados a uma cidadania de segunda classe em sua própria terra. Ambos os lados são compostos tanto de pessoas boas quanto de zelotes míopes que pregam o ódio”. Não obstante, esclarece Kristof, “o fato de que o conflito se dá entre dois lados cobertos de razão não quer dizer que não haja culpados. Atualmente, em Gaza e em Jerusalém, os falcões estão no poder, cada um alimentando o outro”, concluiu. Chaplin, além de perplexo, fez algo pela paz. E nós?

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