Estrago na campanha

iG Minas Gerais |

A campanha do ex-governador de Minas e senador Aécio Neves (PSDB) à Presidência recebeu um pesado petardo no fim de semana e, até agora, não conseguiu reagir bem. A denúncia do jornal “Folha de S.Paulo”, publicada no domingo, sobre a construção de um pequeno aeroporto no município de Cláudio durante o segundo mandato de Aécio em um terreno de um tio-avô do então governador – desapropriado em 2008 com o pagamento pelo Estado de R$ 1 milhão – joga por terra uma imagem construída e vendida pela equipe do tucano desde o seu primeiro mandato à frente do Executivo estadual: a de um gestor moderno, preocupado com o desperdício do dinheiro público e com a transparência de seus atos. Talvez, ao pé da letra, como vem alegando o presidenciável desde a publicação da reportagem, não haja nenhuma ilegalidade no ato. Mas, em relação à moralidade exigida da administração pública, dificilmente o candidato irá conseguir escapar de um julgamento negativo do eleitorado. Além da necessidade questionável do uso de recursos do Estado – R$ 13,9 milhões – para reformar uma pista de pouso de um município com cerca de 30 mil habitantes, sem grande relevância do ponto de vista econômico, e distante apenas 50 km de um aeroporto regional mais completo, no caso, o de Divinópolis, também pesa o fato de o favorecido pela desapropriação ser um parente do então governador. Junta-se aos argumentos acima o relato quase unânime dos moradores do município da baixíssima utilização do local por aeronaves. E, quando a pista é utilizada, na maioria das vezes, quem a frequenta é o próprio Aécio e seus familiares ou então motociclistas e aeromodelistas nos fins de semana. Um pouso fora dessa rotina, por exemplo, ocorreu em 11 de dezembro do ano passado e mereceu até uma reportagem na “Tribuna de Cláudio”. Na ocasião, a pista foi usada por um avião da Polícia Militar participante de uma operação de transplante de órgãos. Vale ainda lembrar: o aeroporto, desde a sua construção com dinheiro público, não está homologado pela Agência Nacional de Avião Civil (Anac) – em tese não poderia ser utilizado – e, segundo a “Folha de S.Paulo”, a chave do local ficaria com um parente de Aécio. Ele nega. Por tudo isso, por mais documentos, assessores, propagandas, boas relações e discursos do presidenciável tucano, a suspeita de um ato, no mínimo, imoral irá acompanhá-lo de agora em diante. Seu peso na campanha presidencial será medido nas próximas pesquisas, mas, se não ganhou uma dimensão de escândalo, como reclamam apoiadores da campanha da presidente Dilma Rousseff, causou um estrago inesperado na caminhada de Aécio à Presidência, em especial na sua imagem de crítico de gestões perdulárias. “À mulher de César não basta ser honesta, tem de parecer honesta”.

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