Um erudito sertanejo

Autor criou o Movimento Armorial, com o objetivo de desenvolver uma arte erudita com elementos da cultura popular

iG Minas Gerais |

Sucesso. João Grilo (Matheus Nachtergaele) e João Grilo (Selton Mello) na versão para TV de “Auto da Compadecida”
TV Globo/Divulgação
Sucesso. João Grilo (Matheus Nachtergaele) e João Grilo (Selton Mello) na versão para TV de “Auto da Compadecida”

“Cervantes e Dostoievski, mais Stendhal, são os autores que ama. Camões, Fernando Pessoa e Drummond são os poetas que ama. Na prosa, gosta também de Guimarães Rosa. No teatro, é Plauto e Shakespeare, Molière, Gil Vicente e Calderón de La Barca. Não gosta muito de cinema, a não ser filme de faroeste. Courbet é o grande da pintura. Vivaldi e Bach ouve sempre”.

O próprio Ariano Suassuna, certa vez, apresentou o microcurrículo acima como uma síntese de suas preferências e alicerces fundacionais. Nunca, em toda sua obra, se afastou do arcabouço intelectual que criou para si mesmo: os autos medievais, o folclore nordestino, os clássicos, a batalha estandartizada em que os puros sempre levam a melhor diante da Justiça e do acaso.

Ele foi o idealizador do Movimento Armorial, criado com o objetivo de desenvolver uma arte erudita com elementos da cultura popular do Nordeste brasileiro. Para isso, os armorialistas valeram-se de todas as formas de expressões artísticas – teatro, cinema, arquitetura, música, dança, literatura, artes plásticas. Um dos marcos dessa nova estética foi “O Romance d’A Pedra do Reino”, que levou cerca de 12 anos para escrever e foi publicado em 1971, pela editora José Olympio. A obra ganha o prêmio nacional de ficção do Instituto Nacional do Livro no ano seguinte.

Nas entrevistas que concedia, ele fazia questão de reiterar que não era um artista popular. “Seria até uma impostura dizer isso porque o nome popular é muito de falar sobre, existem várias acepções diferentes da mesma palavra. Patativa do Assaré é um poeta popular. Jota Borges, como seu grande conterrâneo, Damásio de Paula, é um grande gravador cearense. Eles são gravadores populares. Samico não, Samico é como eu. Ele é um gravador erudito, que parte do popular para criar um novo tipo de arte”.

Obra mais popular. Mas sua obra mais popular é a peça “Auto da Compadecida”, lançada em 1955, e que projetou nacionalmente o seu nome. No começo da década de 1960, o crítico Sábato Magaldi não deixou por menos e disse que era o texto “mais popular do moderno teatro brasileiro”. As montagens sucederam-se por todo o país. E “Auto” ganhou versões para cinema e televisão. Chicó e João Grilo, os personagens centrais, viraram emblemas de brasilidade.

“Auto da Compadecida” é uma comédia que mistura barroco, literatura de cordel e tradição religiosa. João Grilo representa o homem pobre e aproveitador, que vive arranjando confusões para si mesmo e os outros. Seu melhor amigo, Chicó, é o homem covarde que conta lorotas para se engrandecer. Na trama, Chicó e João Grilo se envolvem com o bispo e o cangaceiro. A ação converge para o julgamento no céu, com a intervenção de Nossa Senhora em favor dos heróis.

O que Suassuna nunca aceitou foi a comparação, feita por muitos críticos, entre a esperteza de João Grilo e a falta de caráter do Macunaíma de Mário de Andrade. Suassuna sempre achou que João Grilo tem todo o caráter do mundo e é o que o leva a lutar contra todos, do patriarca ao demo. “Acho que João Grilo é, para mim, o que Emília era para Lobato”, disse certa vez.

Política cultural. Suassuna sempre esteve envolvido com a política pública cultural. Nos anos 1967 e 1968, ajudou a fundar o Conselho Federal de Cultura e o Conselho Estadual de Cultura de Pernambuco.

Em 1975, foi nomeado Secretário de Educação e Cultura do Recife, cargo que exerceu até 1978. Em 1995, tornou-se secretário da Cultura de Pernambuco, durante o governo de Miguel Arraes, cargo para o qual foi nomeado novamente em 2007, no primeiro mandato de Eduardo Campos. Era assessor especial do governo de Pernambuco.

Começo

Ariano Suassuna iniciou seu percurso na literatura com o poema “Noturno”, ecoando o gênero lírico, em 1945. Os versos foram escritos quando ele ainda cursava o equivalente hoje ao ensino médio e foram publicados no “Jornal do Commercio do Recife”.

 

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