Istambul, uma paixão (parte dois)

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Da janela do hotel visualizo o sol que se apaga, refletido nas águas do Bósforo. São dez horas da noite na cidade de Istambul. Concomitantemente, ouço ao longe, provenientes das inúmeras mesquitas, orações cantadas em vozes masculinas. E fico ali, vendo o sol se despedir do dia, enquanto eu, distante – física e mentalmente –, me deixo levar. Adoro isto aqui!, penso, enquanto observo pequenas e grandes embarcações, que de um lado ao outro, do Ocidente ao Oriente, do Bósforo ao mar de Marmara, transportam gente e mercadorias. Amanhã visitarei o lado de lá, penso, satisfeita com a possibilidade de um passeio matutino, navegando por mais de uma hora no famoso estreito, passando sob a quilométrica ponte de Galata, ligando Europa e Ásia. Segundo me disseram, é fechada aos pedestres, devido aos suicidas que para lá se dirigiam.  Durmo com as janelas abertas, ouvindo os rumores da cidade. Oito horas, o sol escaldante avisa que o dia será tão quente como o anterior. No pequeno barco, o marinheiro nos oferece um chá de maçã, e, aos trancos e barrancos, vamos equilibrando nossos copos, nossos corpos, sobre as águas agitadas e claras do Bósforo. Palácios de mármore, antigas fortalezas, casas de madeira, restaurantes e mansões surgem às margens, enquanto a nossa guia nos conta um pouco de suas histórias, sempre dando um jeito de voltar aos dias de hoje e, naturalmente, expor o seu assunto predileto, “a mediocridade dos governos corruptos”. Fico rindo, enquanto usufruo cada momento do passeio. Navios e petroleiros vazios passam perto, dividindo o espaço com embarcações pequenas feito a nossa, e, no meio de tudo, golfinhos fazem a festa, saltando indiferentes à confusão que os rodeia. Mais tarde, nos dirigimos de carro ao famoso bairro Sultanahmet. Da janela, avistamos o museu Santa Sofia, construído pelos romanos na época bizantina. Igreja por quase mil anos, depois transformada em mesquita. Até que, em 1935, restaurada, foi aberta aos visitantes como museu, o terceiro mais visitado da Turquia. Com meu caderninho e caneta nas mãos, tento acompanhar as palavras de Sevda, um furacão em ebulição, que dispara de forma “automatizada” o seu repertório de guia turístico.  A arquitetura e a grandiosidade de Santa Sofia impressionam, assim feito a Mesquita Azul, que visitei a seguir, descalça e enrolada num lenço. Saias curtas, decotes e shorts são terminantemente proibidos, mas, para as desavisadas, saias compridas de tecido barato são emprestadas na entrada, assim como os lenços para cobrir a cabeça. Uma multidão de turistas, com suas máquinas fotográficas, entra em burburinho, e eu, fascinada pelo que vejo, me silencio. O lugar é lindo, ornamentado por vitrais e milhares de azulejos azuis. Leio que foi construída por volta de 1600 a mando do Sultão Ahmet, de 19 anos, que “queria uma mesquita imponente para desafiar a grandiosidade da Basílica de Santa Sofia”, aliás, bem próximas uma da outra. Pisando num tapete monumental, vejo no centro, onde não nos é permitida a entrada, fiéis em oração. Virados para Meca, oram com devoção, enquanto as mulheres, em outro local, fazem o mesmo, embora com menos fervor. De lá seguimos ao Palácio de Topkapi, um dos maiores e mais antigos do mundo, hoje o museu mais visitado da Turquia. Sevda nos fala dos sultões e seus haréns, esposas oficiais, soldados e criados que ali viveram, a partir do século XV. Entre suas muralhas passavam cerca de 10 mil pessoas – 5.000 moradores e 5.000 visitantes ao dia. Uma verdadeira cidade numa área de 700 mil m², duas vezes o tamanho do Vaticano. Devido a terremotos e incêndios, a maioria dos edifícios foi destruída, sendo depois restaurada. A opulência das joias e dos ornamentos chama a atenção, assim como as vestes estranhas e ricas usadas na época, principalmente pelos sultões. Encontrei ali o terceiro maior diamante do mundo, presente de um sultão ao outro, a maior esmeralda já vista, sob forma de joia, vestimentas bordadas em ouro e pedras preciosas, pérolas naturais gigantes, porcelanas chinesas e uma infinidade de riquezas. Curiosa, dou uma olhada no mapa a mim oferecido na entrada. Diversos setores dão ao lugar certa organização: cozinha monumental, seção de utensílios, seção de objetos de vidros e de porcelanas, seção de porcelanas chinesas, seção de armas, sala das frutas, pátio das favoritas, quarto do sultão, quarto da mãe do sultão, sala de audiência, biblioteca, seção de têxteis, seção do tesouro, seção dos relógios, seção das relíquias sagradas, sala de circuncisão, livraria, padaria, pátios diversos, centenas de quartos, entre outros.  No harém, além das mulheres e da mãe do sultão, ficavam os irmãos e crianças preparados para o trono, assim feito os homens e as mulheres que trabalhavam no local. Muitos sultões mantinham quatro mulheres, como é permitido pelo Islã, outros, como um de nome Murat, manteve até 1.200 concubinas. Normalmente eram escravas, jovens e belas, trazidas dos países conquistados. Aquelas que tinham filhos do sultão eram privilegiadas. Havia grande rivalidade entre elas, já que o primeiro filho do sultão, como numa dinastia, se vivesse até a morte do pai, herdaria o trono. Daí, muitas concubinas matavam os filhos de outras, de forma a permitir que os próprios filhos herdassem o trono. Mas quem realmente tinha poder era a mãe do sultão, também chamada de “rainha-mãe”, só não sendo mais importante que o filho. Independentemente de suas origens, todas as mulheres eram obrigadas a se converter ao islamismo. A história dos haréns me interessa, e nossa guia feminista discursa sobre suas condições até que, cansada de tanto passado, retorna ao presente, em que o pobre do primeiro-ministro volta a ser seu principal alvo. Um “sultão moderno, com seu harém de bajuladores, corruptos e safados”. Só mesmo rindo, penso, enquanto me divirto e aprecio as ruas movimentadas desta Istambul que adoro.*

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