Afeto é adereço para falar sobre a onipresença do fim

iG Minas Gerais | Vinícius Lacerda |

Morte narra histórias de casal para ilustrar sua ubiquidade
Bianca de Sá / divulgação
Morte narra histórias de casal para ilustrar sua ubiquidade

Oswaldo e Analeta, personagens da peça “Até que Aurora nos Prepare”, formam um casal como qualquer outro que se ama. Compartilham momentos de alegria, se questionam depois de discussões e acreditam no amor. Esse laço – ou qualquer que seja sua metáfora para o sentimento – é o ponto de partida do espetáculo da Cia Três Calados, em cartaz, a partir de hoje, na Funarte.

A montagem, fruto da criação coletiva dos três integrantes da companhia, porém, só utiliza a afeição entre os dois para ilustrar a finitude da existência humana, tema central do enredo. “O espetáculo surgiu de uma reflexão filosófica sobre virtudes. Chegamos à conclusão de que elas só existem por conta da fronteira que delimita a vida”, conta o integrante do grupo Fabiano Galdino.

Para ilustrar um tema tão profundo e complexo, está presente no palco Aurora, responsável por narrar as desventuras dos dois. “Ela é a morte e, como tal, é onipresente. Está ali a todo momento, contando o tempo para levar mais um”, diz.

Tarefa a qual cumpre, na peça, sem errar. “Ela é a única personagem que sobrevive no final da história”, comenta Galdino, depois de afirmar que não vê nenhum problema na divulgação do desfecho. “A expectativa que temos de surpreender o público não está atrelada à história em si, mas à forma como a contamos”, justifica. É o aspecto poético presente nas nuances da peça, por exemplo, que mais chama atenção do ator. “Isso, por exemplo, não dá para contar”, diz.

Contribuem para a edificação da perspectiva de Galdino as influências utilizadas. Os livros “O Pirotécnico Zacarias”, de Murilo Rubião, e o obra “Flor, Telefone, Moça”, de Carlos Drummond de Andrade, fazem parte da lista. “O meu personagem tem muito do Zacarias, e a Anatela, do texto de Drummond. Além disso, também utilizamos referências de obras de Mario Quintana e Júlio Cortázar”, diz.

Criação. Todas as influências e reflexões são fruto da divergência na formação dos componentes da Três Calados. “Somos um publicitário, uma filósofa e uma psicóloga. Criamos a peça guiados pelas experiências e conhecimentos de cada”, afirma Galdino.

Para suprir possíveis lacunas decorrentes da falta de uma educação formal cênica, o grupo convidou Lucélia Saturnino para dirigi-los. “É uma atriz formada, com experiência como assistente de direção, mas que ainda não havia dirigido nenhuma peça. Foi a inauguração dela, assim como foi a nossa”, diz Galdino.

 

Inspiração

Cinema. A influência de “Volver”, de Almodóvar, reverbera no sotaque de Aurora. “Foi uma forma de fazer uma ligação com países como México e Espanha, que lidam com a morte de forma diferente da nossa”, diz Galdino.  

Agenda

O quê. Peça “Até que Aurora nos Prepare”

Quando. Entre hoje e sábado, às 20h, e no domingo, às 19h

Onde. Funarte (rua Januária, 68, Floresta)

Quanto. R$ 10 (inteira) e R$ 5 (meia)

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