Apogeu de duas civilizações em “Planeta dos Macacos: O Confronto”

Sequência mantém alto nível da nova trilogia; interpretado novamente por Andy Serkis, o líder dos macacos é o personagem de maior destaque

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Herói. Saga do protagonista Caesar ganha contornos épicos, com a chegada da família, traições e guerra
fox/divulgação
Herói. Saga do protagonista Caesar ganha contornos épicos, com a chegada da família, traições e guerra

Houve uma época em que os filmes tinham incríveis cenas de ação porque eram grandes – e não eram grandes porque tinham incríveis cenas de ação. Um tempo em que o arrebatamento causado pelas sequências de batalhas e lutas se dava pelo poder da história, e não o contrário. Esses filmes eram os chamados épicos – e foram substituídos pelo que conhecemos hoje como “blockbusters”.

Na ausência de “Lawrence da Arábia”, “Spartacus” e “Ben-Hur”, o mais próximo que temos deles hoje é o Caesar de “Planeta dos Macacos: O Confronto”. Porque ele, assim como seu filme, são mais que uma aventura de ficção científica: são um tratado sobre a sociedade humana.

Se o longa anterior contava como os universos humano e símio separados, este segundo capítulo é a história do ocaso de uma civilização e o nascimento de outra. Dizimados pelo vírus criado no fim de “Planeta dos Macacos: A Origem”, os poucos humanos sobreviventes veem seus sistemas de saúde, comunicação e defesa se desintegrarem. Enquanto isso, isolados numa floresta, os símios liderados por Caesar (Andy Serkis) vão desenvolvendo os três elementos básicos de qualquer sociedade: linguagem, hierarquia/poder e política de defesa.

Não é por acaso que a primeira sequência de “O Confronto” envolve os macacos numa caçada pela floresta. Naquele momento, eles ainda são animais, matando apenas para fins de sobrevivência.

Na próxima vez que atacarem, será por vingança – numa das cenas de ação de maior impacto emocional do ano, que leva o espectador a enxergar ali não tiros e explosões, mas genocídio e a falta de sentido da guerra. É o ponto de virada de uma trajetória rumo a um final em que os símios descobrem o que é matar por poder e prazer, esse terrível traço que diferencia o ser humano dos demais animais.

O filme do diretor Matt Reeves (“Deixe Ela Entrar”, “Cloverfield”) narra isso como uma tragédia shakespereana, marcada por traições, maquinações políticas e golpes de estado. É por isso que os personagens símios do longa são tão mais complexos que os humanos, determinados puramente pelo instinto de sobrevivência.

É esse desespero que vai colocar o grupo do sobrevivente Malcolm (Jason Clarke) em contato com os macacos liderados por Caesar, em busca de uma represa na tentativa de restabelecer a energia elétrica. Reeves usa essa trama boba como uma metáfora visual simples e efetiva. A fotografia de Michael Seresin é escura, cinza, quase sem luz ou cor, deixando bem claro que toda a tecnologia e iluminação cientifica que a humanidade conhece hoje se foi.

Quando a luz chega ao longa pela primeira vez, ela proporciona um dos momentos mais belos do filme, com a canção “The Weight”, da The Band, servindo como relíquia de uma humanidade perdida. Rapidamente, porém, a luz se torna fogo, lembrando o talento humano para transformar suas invenções em destruição.

E essa oposição entre luz e sombra ganha vida e complexidade nas duas grandes performances de “O Confronto”. A primeira é de Andy Serkis como Caesar, um líder que aprende que não se pode ser um Spartacus ou Ben-Hur sem sujar as mãos de sangue. Não fosse o fato de que seu protagonista é um macaco, as expressões de sofrimento e o dilema moral no rosto de Caesar fariam do ator um favorito ao Oscar em 2015.

Mas a grande revelação é, sem dúvida, Toby Kebbell que, como o símio Koba, mostra que Serkis não detém o monopólio das grandes atuações por captura de performance. Torturado e maltratado pelos humanos no longa anterior, o ódio e a explosão de violência de Koba é a prova de que nós sempre construímos nossos piores inimigos.

É essa a explosão que interessa em “Planeta dos Macacos: O Confronto”. É ela que dá as notas à percussão da trilha épica de Michael Giacchino. E isso, meus caros, é grande cinema.

 

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