Novas prisões, velho enredo

iG Minas Gerais |

A situação dos presos e procurados pela polícia por terem supostamente se envolvido em protestos violentos se tornou um roteiro previsível e, portanto, sem graça. Trama similar está em “Os Carbonários” ou “O que É Isso, Companheiro?”. Depois dos atos incendiários de militância, vêm a caça policial, a prisão e, por fim, até tentativa de exílio. Esse filme, o Brasil já viu há quatro décadas. A ironia é ele ser reprisado tanto tempo depois, em um país dito democrático e presidido por uma mulher que viveu, literalmente na pele, quase todas aquelas fases.  É complicado para quem prima por andar na linha, mesmo mantendo aceso seu esboço de consciência crítica, compreender violência como performance para atingir fins políticos. Quebrar vidraças, destruir viaturas e arremessar pedras no batalhão de choque numa espécie de intifada ocidental-terceiro-mundista parece ser demais para quem aposta na evolução gradual do civismo e da democracia – até por não enxergar outra forma de isso se dar. Por outro lado, não tem como não ver conotação política nas prisões desses vinte e tantos ativistas no Rio de Janeiro. Talvez existam mais em outros lugares, como um membro da tal Mídia Ninja que estava encarcerado em BH até outro dia. Da mesma forma, a acusação de associação a atos violentos coordenados soa fugaz e ressuscita o clima kafkiano da Lei de Segurança Nacional da década de 60. O fato de os mandados terem sido cumpridos no dia 12 de julho, no Rio, realça odores suspeitos. A “eficácia policial” contra os aparentes cabeças das manifestações fica como um dos legados mais evidentes da Copa da Fifa: na véspera da final, 19 presos. Entre os foragidos, uma advogada, que agora pede asilo político no Uruguai. Pontualmente, é o retorno a práticas, ambientes e sensações que se pensava terem ficado na história. Mas foi a máquina de repressão o que levou os protestos a minguarem neste ano? Em julho de 2013, tão certo como a água corre para o mar era afirmar que as manifestações seriam, dali a 11 meses, tão ou mais grandiosas. O que causou o revés dessa previsão? Seria o fato de a Copa ser Copa, um circo imbatível que mina qualquer interesse político? Talvez, ainda que seja raso. Houve um ato na praça Sete agendado para acabar antes do horário das oitavas de final entre Brasil e Chile, no dia 28. Não seria o crescimento da violência um fator mais razoável para a perda de força das ruas? As manifestações foram absorvendo cenas de batalha, também um batido elemento de enredo, protagonizadas tanto por parte da militância quanto pela PM. Convém não esquecer que, nesse um ano de distância, foi assassinado o cinegrafista Santiago, não à toa, no Rio. Seria incorreto, portanto, deduzir que as manifestações definharam justamente com a ajuda dos manifestantes, em sua porção mais exaltada? Se a repressão policial é um legado da passagem da Fifa, com suas cenas e desdobramentos de outros tempos e outras militâncias, a beleza dos grandes atos de junho do ano passado, aquele germe cívico tão numeroso, talvez não renda frutos até outubro. 

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