Um acaso indispensável

Criada sem grandes ambições, Imovision é reconhecida em Paulínia por introduzir no país o melhor do cinema mundial

iG Minas Gerais | Daniel Oliveira |

Pioneiro. A distribuidora introduziu o cinema iraniano no Brasil com “O Balão Branco”, de 1995
fotos: imovision / divulgação
Pioneiro. A distribuidora introduziu o cinema iraniano no Brasil com “O Balão Branco”, de 1995
Segundo Jean Thomas Bernardini, quem o conhece sabe que ele não é dado a comemorações. Muito menos autocongratulação. Por isso, convencer o fundador da Imovision a receber uma homenagem no 6º Paulínia Film Festival pelos 25 anos da distribuidora não foi uma tarefa simples.  “A forma de me convidar foi fundamental. Não foi um negócio de ‘você merece, pela iniciativa’”, brinca o francês, que reside no Brasil desde os anos 1980. Em vez disso, a mostra optou por celebrar o catálogo da distribuidora. E ao trazer grandes nomes do cinema não-hollywoodiano para o tapete vermelho, a homenagem remete ao grande mérito da Imovision: tornar a obra desses artistas acessível no Brasil. Bernardini acredita que essa seja a melhor forma de celebrar a data por não se considerar nenhum visionário que triunfou com uma ideia genial. Para ele, a importância que a Imovision assumiu no cinema brasileiro foi um acaso. Bacharel em psicologia, ele sempre se considerou um cinéfilo e participou de vários cineclubes durante a faculdade. “Mas nunca pensei em trabalhar com cinema”, revela. Foi na segunda metade dos anos 1980, quando ele já estava no Brasil trabalhando com moda, que o amigo, o diretor Denis Amar, disse que estava com um filme pronto e que Bernardini deveria lançá-lo no Brasil. E apesar de nunca ter feito nada parecido, ele decidiu ajudar a trazer o longa, “Inverno 54”, para cá. Só que, para importar os materiais, Bernardini teve que abrir uma empresa. “Minha ideia era criar a distribuidora para lançar só esse filme e fechar logo depois”, lembra. Mas “Inverno 54” acabou se tornando um sucesso no circuito alternativo em 1989, e outros pedidos surgiram. “O mercado não era nada na época, só uns cinemas de rua. Mas decidi deixar a distribuidora aberta para lançar uns dois filmes por ano, algo de que eu gostasse”, conta.  O resto é história. Com 25 anos de trajetória, a Imovision é responsável pela distribuição no Brasil de alguns dos maiores clássicos do cinema contemporâneo – títulos do naipe de “Dogville”, “A Separação” e “Amor”. Bernardini, porém, afirma ter dois grandes orgulhos nessa trajetória. O primeiro é a introdução do cinema iraniano no Brasil. “Estava em Cannes e um amigo meu me falou de um filme com uma menina andando o tempo inteiro com um balão branco”, ele recorda. O francês foi assistir, adquiriu “O Balão Branco” no próprio festival em 1995 e trouxe o longa para as mostras do Rio e São Paulo. “Foi quando a América Latina começou a olhar para esse cinema e o filme funcionou muito bem comercialmente”, destaca.  O segundo orgulho foi a descoberta do Dogma 95. Bernardini lembra que quando “Festa de Família”, de Thomas Vinterberg, foi exibido em Cannes, em 1998, e os mandamentos do movimento foram anunciados, “aquilo assustou um pouco o povo”. Mas ele foi ver o longa e adorou. “Cannes normalmente é uma briga ferrenha para adquirir os títulos. Quando fui ao agente e falei que tinha amado ‘Festa de Família’, ele me disse ‘Jean, você foi o único. Todo mundo fugiu’”, ele ri.  Desde então, quase todos os filmes do Dogma que chegaram no Brasil foram pela Imovision. E enquanto Bernardini reconhece que nem todos “são os filmes preferidos da minha vida, eles completam uma série e descobri-los foi um reconhecimento cinéfilo agradável”. Hoje, apesar de estabelecida como uma das principais distribuidoras independentes do país, a Imovision encara o desafio da digitalização do mercado. Mesmo que, no Brasil, ela ainda esteja mais presente nos grandes cineplexes que não exibem o tipo de filme que Bernardini comercializa, a nova realidade já se faz presente. “As poucas salas de redes grandes que recebiam nossos filmes já não exibem mais, com esses grandes lançamentos de 1.500, 2.000 cópias”, explica.  Vinte e cinco anos depois, o francês defende que a Imovision continua trabalhando por prazer, e não para fazer dinheiro. “Nossa filosofia continua a mesma, de lançar os filmes de que a gente gosta”, afirma. Para ele, a diferença é que é cada dia mais difícil conquistar o público, dados os recursos nas mãos das grandes empresas. E o desafio é convencer as autoridades de que a arte deve ser defendida com unhas e dentes. “Mas, como em várias outras áreas, pode ser que um dia a ganância vença. E se ela vencer, a gente está fora do jogo”, suspira. 

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